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Informe do Correio

Educação precária perpetua desigualdade

Atlas mostra que 48% dos brasileiros nascidos entre os 25% mais pobres permanecem na mesma faixa de renda na vida adulta
Por O Correio de Hoje
04/08/2026 | 14:24

O Atlas da Mobilidade Social, elaborado pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social, associado ao Prospera Lab, mostra que o avanço da escolarização no Brasil não foi suficiente para romper o ciclo da desigualdade. Entre os 25% que nasceram nas famílias mais pobres, 48% permanecem na mesma faixa de renda ao chegar à vida adulta. Dos outros 52%, 74% continuam na metade inferior da distribuição, apenas 8,3% alcançam o grupo dos 25% mais ricos e somente 1,3% chegam aos 10% de maior renda.

Os números revelam que nascer pobre no Brasil ainda significa enfrentar enorme dificuldade para mudar de posição social. Houve progresso na presença de crianças e jovens na escola, mas esse avanço não se traduziu em ascensão econômica. A mobilidade existe, porém alcança poucos e raramente conduz aos estratos superiores. A maioria dos que melhoram de vida permanece na metade mais pobre do país.

Atlas da Mobilidade Social mostra que a origem familiar ainda determina renda, escolaridade e oportunidades na vida adulta no Brasil
Atlas da Mobilidade Social mostra que a origem familiar ainda determina renda, escolaridade e oportunidades - Foto: José Aldenir

“É necessário oferecer melhores oportunidades aos filhos das famílias mais pobres, como educação de qualidade e empregos com remuneração mais elevada”, afirma Fernando Veloso, diretor de pesquisa do IMDS. A observação resume o principal desafio. A renda das famílias influencia o percurso escolar, e o percurso escolar, por sua vez, condiciona a possibilidade de acesso a ocupações mais qualificadas e bem remuneradas.

A educação é reconhecida pelos economistas como o instrumento mais eficiente para reduzir a desigualdade. No Brasil, entretanto, o sistema continua produzindo resultados distantes do necessário. Entre os brasileiros que nascem no quarto mais pobre da população, 47% conseguem concluir o ensino médio. O percentual representa avanço, mas está longe de assegurar uma mudança efetiva de patamar social.

O bloqueio aparece na passagem para o ensino superior. Apenas 1,6% dos que nasceram entre os 25% mais pobres conseguem obter um diploma universitário. Essa formação funciona como um dos principais passaportes para empregos de melhor remuneração, maior estabilidade e possibilidade de crescimento profissional. Quando o acesso é tão restrito, a desigualdade deixa de ser apenas uma consequência da renda e passa a ser reproduzida pelo próprio sistema educacional.

A diferença torna-se ainda mais clara quando se observam as demais faixas de renda. Na classe média, 60% terminam o ensino médio e 4,2% concluem o ensino superior. Entre os 25% mais ricos, 91% chegam ao fim do ensino médio e 38% conquistam diploma universitário. O contraste entre 1,6% e 38% demonstra quanto a origem familiar ainda determina as oportunidades disponíveis na vida adulta.

Veloso classifica essa desigualdade como um “grande obstáculo” à mobilidade social. “A conclusão do ensino superior permite acesso a empregos com remuneração mais elevada e maiores oportunidades de ascensão na carreira, especialmente diante do avanço de novas tecnologias como inteligência artificial”, diz ele. Quanto mais o mercado de trabalho exige formação específica, domínio tecnológico e capacidade de adaptação, maior tende a ser a penalização de quem não ultrapassa as etapas básicas da educação.

A experiência internacional confirma essa relação entre educação, produtividade e desenvolvimento. Países que avançaram para patamares superiores de renda fizeram da formação escolar uma prioridade, especialmente nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, reunidas na sigla inglesa STEM. A Coreia do Sul é um exemplo frequente porque partiu de uma situação econômica comparável à brasileira e construiu um resultado muito diferente.

Na década de 1980, Brasil e Coreia do Sul tinham renda per capita de aproximadamente US$ 8,5 mil, calculada a preços de 2011. No ano passado, segundo o Banco Mundial, a renda brasileira havia alcançado US$ 22,7 mil, enquanto a sul-coreana chegou a US$ 64,2 mil. A distância entre os dois países não pode ser dissociada das escolhas educacionais feitas ao longo desse período.

Na Coreia do Sul, 32% dos estudantes concluem cursos ligados às áreas STEM. No Brasil, essa proporção é de apenas 16%, conforme dados de 2023 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. A diferença revela menor acesso ao ensino superior e formação insuficiente nos campos associados à inovação, ao aumento da produtividade e aos empregos mais qualificados.

O Atlas permite medir a armadilha da renda média em que o país está preso. Governos podem ampliar transferências e gastos sociais, e essas políticas têm importância para aliviar a pobreza. Elas, contudo, não substituem uma escola capaz de ensinar, formar e preparar crianças e jovens para oportunidades melhores. Sem qualidade educacional, o apoio imediato não se converte em mobilidade duradoura.

A educação é a principal engrenagem da mudança entre gerações. Quando falha, a pobreza permanece, a estrutura social se cristaliza e a origem familiar continua definindo o destino econômico. O problema se agrava porque a população brasileira envelhece rapidamente. O país dispõe de menos tempo para qualificar seus trabalhadores, ampliar a produtividade e impedir que uma parcela crescente da população chegue à vida adulta sem condições de competir por vagas melhores.

Não basta celebrar o aumento das matrículas ou a conclusão de etapas escolares. É necessário assegurar aprendizado, acesso ao ensino superior e formação compatível com as transformações tecnológicas. Enquanto a educação continuar distribuída de maneira tão desigual, a ascensão social permanecerá uma exceção. E o Brasil seguirá reproduzindo, de uma geração para outra, a pobreza que afirma querer superar.