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Opinião

Lula desperdiça sua vantagem na campanha

Presidente anuncia cinco compromissos, aposta em Haddad e enfrenta queda da vantagem sobre Flávio Bolsonaro nas pesquisas
Por O Correio de Hoje
05/08/2026 | 15:18

Lula gastou 62 minutos numa reunião do PT para lançar sua campanha, mas não apresentou uma marca para um governo já no ocaso. Anunciou cinco compromissos. Prometeu “resolver definitivamente o papel da educação”, criar um programa para idosos, fortalecer a indústria militar, preservar a riqueza das terras-raras “para os brasileiros” e desenvolver programas de transição energética.

É mais do que Flávio Bolsonaro defende, embora continue sendo discurso de palanque. “Resolver definitivamente o papel da educação” nada esclarece, porque a educação não sofre de um “papel” mal resolvido. As outras quatro propostas são generalidades. Podem funcionar, fracassar ou não produzir resultado.

Lula inicia campanha com cinco compromissos genéricos, aposta em Haddad e enfrenta redução da vantagem sobre Flávio Bolsonaro
Lula inicia campanha com cinco compromissos genéricos Foto: Ricardo Stuckert

A experiência recomenda cautela. A Embraer deu certo, enquanto a fabricação do tanque Osório terminou na falência da Engesa, empresa querida por alguns generais. Seus dois protótipos foram parar em museus. Em 1993, Saddam Hussein, então ditador do Iraque, falou a um embaixador brasileiro sobre o dono da empresa. “Diga a ele para não nos oferecer o que não tem”. Referia-se à fabricação de uma bomba atômica.

Lula fala com a alma quando improvisa caminhando pelo palanque. Foi assim que insultou os advogados. “Criminalista não sabe defender inocente, só sabe defender bandido”. Sem os criminalistas, ele não teria passado de ex-dirigente sindical. Tampouco teria anulado as sentenças do juiz Sergio Moro sem o advogado Cristiano Zanin.

No mesmo encontro, Lula anunciou Fernando Haddad como o próximo presidente. A previsão reúne dois pressupostos de solidez diferente. É provável que Lula se reeleja pela terceira vez. Apenas possível é uma vitória do ex-ministro da Fazenda em São Paulo.

O retrospecto mostra a dificuldade. Haddad elegeu-se prefeito de São Paulo em 2012, mas perdeu a reeleição em 2016. Em 2018, foi para o sacrifício na disputa presidencial e perdeu para Bolsonaro. Em 2022, Tarcísio de Freitas derrotou-o na eleição para governador paulista. Ambos disputarão novamente o cargo em outubro. Haddad venceu somente o primeiro confronto.

Lula abriu a campanha obedecendo ao próprio script. É repetitivo, muitas vezes inoportuno e quase sempre estranho à agenda eleitoral, começando pela duração. Como não ajustou seu discurso aos ônibus que levaram o público à reunião petista, muitos saíram antes do fim para não perder a condução.

A eleição de 2026 é inédita. O principal adversário de Lula acumula crises, enquanto os presidentes dos Estados Unidos e da Argentina o atacam com o propósito declarado de interferir no pleito brasileiro. Nada semelhante havia ocorrido, nem com tarifas, no caso de Donald Trump, nem com baixarias, no caso de Javier Milei.

Ainda assim, a campanha presidencial admite dificuldades num segundo turno. Lula enfrenta obstáculos para conquistar indecisos e virar eleitores de outros candidatos. Divulgada na segunda-feira, a pesquisa BTG/Nexus mostrou que sua vantagem sobre Flávio Bolsonaro no primeiro turno caiu de 9 para 4 pontos. No segundo, ambos estão tecnicamente empatados.

Essas barreiras não serão rompidas se Lula continuar repetindo aos petistas.

— No quarto mandato, eu não quero Lulinha paz e amor, quero Lulinha porreta.