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Artigo

Conservadorismo do caos

Confira o artigo de Bruno Araújo deste sábado 15
Bruno Araújo
15/02/2025 | 05:10

A inflação sobre os alimentos é o principal desafio enfrentado pela população brasileira. Em 2024, o Brasil foi quarto país entre os latino-americanos com a marca de 7,69%. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no ano passado fechou em 4,83%, acima da meta estabelecida de 3,0%. A operação da taxa Selic pelo Banco Central é o principal instrumento utilizado para controle inflacionário. A mais recente avaliação da taxa elevou para 13,25% ao ano, aumento de 1 ponto percentual, e ainda com a perspectiva de mais um aumento de 1%, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).

Algo de construção complexa como o índice inflacionário não pode ser resolvido por um único instrumento, especialmente quando se fala sobre alimentos que têm seus preços influenciados por clima, safras e condições dos mercados globais. No caso do Brasil, com uma inflação pressionada pelo aumento dos custos de produção – e não necessariamente pelo aumento da demanda – não pode se combatida apenas com aumento dos juros. O perfil conservador e excessivamente pragmático do Banco Central acaba por se mostrar ineficiente em seu objetivo e até nocivo.

Juros altos, como os praticados pela instituição responsável pelo controle da política monetária, impactam na redução da arrecadação pelo Governo Federal que resulta num déficit fiscal e, inevitavelmente, no corte de investimentos federais. E, claro, também reduz a busca por crédito, freia investimentos e, consequentemente, o próprio desenvolvimento e o crescimento econômico do país com o impacto direto no produto interno bruto (PIB).

A reflexão não significa que o presidente Lula e seus ministro não tenham responsabilidade sobre ações necessárias ao equilíbrio das contas públicas, tão pouco o próprio Congresso Nacional que aprovou uma reforma tributária que simplificou o ordenamento tributário no país, mas não alcançou a justiça social com tributação maior sobre quem ganham mais em detrimento dos que possuem renda menor. Os juros estratosféricos e o equilíbrio das contas públicas para atender à demanda do mercado não podem superar a qualquer custo à necessidade do cidadão brasileiro mais vulnerável de se alimentar.

A ascensão de Gabriel Galípolo ao comando do Banco Central não pode ser vista como a salvação ou a resolução do problema, visto que as decisões sobre ampliar ou não os percentuais da Selic são votadas no Copom. Ainda assim, é dele a missão de reverter essa visão e ação de “conservadorismo do caos” estabelecida na instituição que opera à base da tradição. Uma instituição que não busca alternativas para impulsionar a missão que vai além do controle inflacionário, mas também de suavizar as flutuações da atividade econômica e promover o pleno emprego. É preciso ir além do óbvio, no caso de alguns, e realizar o óbvio por outros.

Bruno Araújo é jornalista, escritor e especialista em Comunicação Pública. ([email protected])