A abertura da alta estação em Natal tem, há muitos anos, um marco simbólico e objetivo: o Carnatal, que começou ontem e vai até domingo no entorno e no interior da Arena das Dunas. Mas, a cada edição, o evento deixa de ser apenas o início do calendário turístico para assumir um papel mais robusto, e hoje incontornável, na dinâmica econômica do Rio Grande do Norte. Os números mais recentes, tanto da percepção dos empresários quanto do perfil dos participantes, consolidam o festival como um dos mais importantes indutores de receita, visibilidade e fluxo de visitantes no Estado. E mostram que, para 2025, a tendência é de expansão ainda mais acelerada.
Em 2024, o Carnatal movimentou R$ 112,6 milhões, segundo levantamento da Fecomércio RN. Foi um salto expressivo em relação aos anos anteriores — R$ 74,2 milhões em 2023 e R$ 60,8 milhões em 2022 — indicando que o evento atravessa um ciclo de crescimento sustentado. Para 2025, a própria organização projeta um avanço adicional entre 15% e 20%, impulsionado por mudanças estruturais, ampliação do público e diversificação das atrações.

Esse impacto não se restringe aos portões do evento. A presença do público — cada vez mais numeroso e diversificado — retroalimenta setores essenciais da economia potiguar. Na última edição, passaram pelo Carnatal cerca de 108 mil pessoas, sendo 41,4 mil turistas, o que equivale a 38,4% do público total. Para 2025, a expectativa é de que a participação de visitantes de fora alcance 42% a 43%, segundo o CEO Felinto Filho. Esse turista chega antes, permanece depois e injeta recursos em hotéis, bares, restaurantes, salões de beleza e serviços de mobilidade. Tanto que a taxa de ocupação hoteleira, de acordo com a organização, já se aproxima dos 90% a 95% no período.
Do lado dos empresários, a percepção é igualmente reveladora. Uma pesquisa com 200 estabelecimentos do entorno da Arena das Dunas — comércio e serviços — mostrou que 63,8% avaliam como positiva a influência do Carnatal nos negócios. Apenas 9% relatam impacto negativo. O movimento reforça a relevância do evento para pequenos e médios negócios, sobretudo os que dependem da circulação intensa de pessoas durante os três dias.
Boa parte desses empreendedores se prepara especialmente para o período: 38,7% ampliam estoque, 22,6% aumentam a variedade de produtos e 18,1% contratam funcionários extras. O investimento médio chega a R$ 5,4 mil, sendo maior no comércio (R$ 6,1 mil) do que nos serviços (R$ 4,7 mil). Em termos de faturamento, a resposta é imediata: empresas de comércio registram média diária de R$ 5.598, enquanto o setor de serviços alcança R$ 8.802 — uma demonstração clara de que o Carnatal funciona como catalisador de receita em diversos segmentos.
O perfil dos foliões também ajuda a explicar a força econômica do evento. São majoritariamente jovens, escolarizados, com renda média acima de R$ 7,3 mil — um público com elevado potencial de consumo. Os turistas, por sua vez, gastam individualmente R$ 1.526 por dia, valor acima do registrado entre residentes (R$ 793). A soma dos dois grupos movimenta volumes relevantes: só em 2024, R$ 51,3 milhões foram injetados na economia pelos turistas, enquanto os residentes responderam por R$ 61,4 milhões.
A consolidação do Carnatal como festival — e não apenas micareta — também potencializa suas dimensões econômicas. O novo formato traz múltiplas experiências, estendendo o tempo de permanência do público e estimulando ativações comerciais mais sofisticadas. Marcas nacionais, como Bob’s, Skol, Esportes da Sorte, PicPay e Elo, ampliaram presença e investimentos, com estruturas maiores, ações personalizadas e lançamentos exclusivos, como o sanduíche temático anunciado para 2025. Trata-se de um tipo de plataforma comercial que projeta Natal nacionalmente e insere o evento no circuito dos grandes festivais brasileiros.
Além disso, o evento, a partir da nova organização liderada pela Clap Entretenimento, deixou de ser uma ação pontual para se tornar uma marca com atuação durante todo o ano. A estratégia inclui novos produtos, ativações e experiências ligadas à marca ao longo do ano inteiro. Já há ações pensadas para o veraneio. A ideia é transformar o Carnatal em uma plataforma permanente de relacionamento com o público. “A gente percebe o Carnatal alargando a sua base, a sua temática de oportunidade relacional”, afirma Felinto Filho.
O Carnatal, portanto, deixa de ser apenas um ponto de animação no calendário natalense e passa a ocupar um lugar estratégico no desenvolvimento econômico do RN. Ele inaugura a alta estação, movimenta cadeias inteiras de produção e serviços, atrai visitantes qualificados, melhora a performance de pequenos negócios e projeta a cidade no mercado de eventos.
A cada dezembro, não é apenas o início do verão que se anuncia. É o início de um ciclo econômico forte, que tem no Carnatal um vetor decisivo de dinamismo para Natal e para o Rio Grande do Norte.