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Música

Moisés de Lima apresenta show “Black In” neste sábado em Natal

Espetáculo reúne músicas autorais, instrumentais e composições inspiradas pelo blues e pela cultura afro-brasileira
Redação
03/06/2026 | 05:05

O músico e compositor natalense Moisés de Lima apresenta neste sábado (6), às 20h, no Mestiços Bar e Espaço Cultural, em Ponta Negra, o show autoral “Black In”. A apresentação reúne composições dos EPs “Afrika” e “Black In”, lançados com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB Natal/RN), além de canções e instrumentais inspirados pelo blues, pela cultura afro-brasileira e pela sonoridade da gaita diatônica. O couvert artístico custa R$ 15.

Vencedor do Prêmio Hangar 2026 na categoria Melhor Compositor do Ano, Moisés também recebeu indicações nas categorias Melhor Canção e Melhor EP pelo trabalho “Black In”. A faixa-título presta homenagem ao poeta negro potiguar Edgar Borges, conhecido como Blackout, nome ligado à contracultura potiguar e falecido em 1999.

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Moisés leva ao palco músicas que dialogam com memória, identidade e resistência cultural - Fotos: Simone Sodré

No palco, o artista será acompanhado por Thiago Andrade, na guitarra, Paulo Fernandes, no baixo, e Luiz Machado, na percussão. O espetáculo reúne músicas produzidas ao longo da trajetória do músico em bandas de rock e blues, além de composições da carreira solo e parcerias com Graco Medeiros, Giancarlo Vieira e Ricardo Silva.

Segundo Moisés de Lima, o conceito do show nasce da relação entre as raízes africanas e os gêneros musicais desenvolvidos nas Américas. “Essa abordagem surge da compreensão de que muitas das expressões musicais que se desenvolveram nas Américas têm origem nas culturas africanas trazidas pela diáspora negra, resultado do processo de escravidão que marcou a história do continente por mais de três séculos. A África foi decisiva para a formação de gêneros que moldaram a música contemporânea, como o jazz, o samba, a salsa, o rock and roll e o blues”, afirmou.

O músico disse que a experiência com o blues contribuiu para aprofundar sua percepção sobre essas conexões culturais. “Foi justamente por meio da minha experiência com o blues que passei a perceber essas conexões de forma mais profunda. Em Natal, uma cidade que recebeu forte influência cultural norte-americana durante a Segunda Guerra Mundial, também se formou uma tradição musical urbana que dialoga, ainda que muitas vezes de maneira indireta, com essa herança africana”, declarou.

Ao explicar o conceito do espetáculo, Moisés afirmou que o projeto representa a relação entre sua trajetória artística e a ancestralidade afrodescendente. “Quando falo desse conceito, estou me referindo ao encontro entre minha trajetória na música urbana e a minha ancestralidade afrodescendente. É uma forma de reconhecer as raízes que atravessam minha formação artística e compreender como elas continuam presentes na música que faço hoje”, disse.

A gaita diatônica ocupa papel central na identidade artística do músico. Segundo ele, o instrumento ainda é pouco difundido no Brasil, especialmente fora da Região Sul. “A harmônica ainda é um instrumento sem cátedra pouco difundido no Brasil, com exceção da Região Sul, onde sua presença foi fortalecida pela tradição musical trazida por imigrantes europeus. O interessante é que, ao longo do século XX, o blues afro-americano ressignificou esse instrumento, transformando-o em uma das vozes mais expressivas da música negra”, afirmou.

Moisés relatou que começou a tocar gaita há cerca de 30 anos e aprofundou pesquisas sobre o instrumento e o blues. “Há cerca de trinta anos, comecei a tocar gaita. A partir daí, mergulhei em pesquisas, ouvi grandes mestres do blues e desenvolvi uma profunda identificação com o instrumento. Esse percurso me levou a me tornar um dos poucos músicos a explorar esse pequeno instrumento no Rio Grande do Norte”, declarou.

O artista destacou ainda que a gaita passou a ocupar espaço central em suas composições. “Hoje, a gaita deixou de ser apenas um instrumento de acompanhamento para ocupar um papel central na minha expressão musical, tornando-se protagonista das minhas composições e da minha identidade como artista”, afirmou.

No repertório e na proposta estética do show, Moisés busca aproximar o blues da cultura afro-brasileira. “Acredito que a pluralidade da música popular brasileira não está resumida apenas aos gêneros tradicionalmente associados ao nosso cancioneiro, como o samba, o choro, o forró ou o baião. Ela também é resultado das várias influências culturais que o Brasil recebeu ao longo de sua formação histórica e social”, disse.

Ele afirmou que o blues foi reinterpretado no Brasil por músicos que incorporaram elementos da realidade cultural brasileira ao gênero. “Embora seja um gênero nascido nos Estados Unidos a partir da experiência da população negra afro-americana, ele encontrou no Brasil músicos que se apropriaram dessa linguagem e a reinventaram, cantando em português e incorporando elementos da nossa realidade cultural. Com isso, o gênero passou a ganhar sotaques, narrativas e a sensibilidade brasileira”, declarou.

Segundo o músico, a fusão entre blues e cultura afro-brasileira representa uma forma de afirmação cultural. “Ao dialogar com uma tradição musical da diáspora africana e reinterpretá-la a partir da experiência brasileira, o blues se torna também uma forma de afirmação cultural e de resistência da negritude, mantendo vivas memórias, identidades e conexões históricas que forçosamente atravessaram o Atlântico e continuam ressoando na música contemporânea”, afirmou.

Moisés define sua sonoridade como um encontro entre afro blues, country e baladas. De acordo com ele, esses estilos compartilham raízes africanas. “Estamos falando de estilos musicais que têm suas raízes na África e que, ao longo do tempo, se espalharam pelo mundo, assumindo diferentes formas e identidades”, explicou.

O músico citou o country como exemplo dessa relação histórica. “Embora seja frequentemente associado ao universo rural branco dos Estados Unidos, pesquisas apontam a forte contribuição de músicos negros para a formação desse gênero, tanto na utilização de instrumentos quanto em suas estruturas melódicas e narrativas”, disse.

Ele afirmou que busca destacar esses pontos de encontro em suas composições. “No meu trabalho, procuro destacar esses pontos de encontro. Isso aparece na mistura de elementos africanos com o blues tradicional, no diálogo com o funk blues e também em baladas mais românticas, que exploram a dimensão emocional da música. São linguagens diferentes, mas que compartilham uma mesma origem”, declarou.

Ao comentar os desafios da música autoral no Rio Grande do Norte, Moisés afirmou que as dificuldades atingem artistas de diferentes estilos. “Manter um trabalho autoral no Rio Grande do Norte é um desafio, mas essa não é uma realidade exclusiva de quem faz blues ou de qualquer outro gênero específico. Historicamente, artistas de diferentes épocas e estilos enfrentaram dificuldades para consolidar uma carreira baseada em suas próprias composições”, afirmou.

Segundo ele, a busca por espaços para circulação da música autoral permanece como um dos principais desafios da cena cultural. “No nosso caso, a luta sempre foi abrir espaços para que a música autoral possa ser ouvida, reconhecida e valorizada. Isso envolve formar público, criar oportunidades de circulação e estabelecer um diálogo constante com a sociedade por meio da arte”, declarou.

O músico também defendeu a pluralidade da produção cultural potiguar. “Acredito que cada artista que insiste em apresentar sua obra contribui para a construção da identidade cultural de um lugar. Essa identidade não precisa ser única ou homogênea; ela pode ser plural, diversa e refletir a riqueza de influências que compõem a música produzida no Rio Grande do Norte”, afirmou.

Natural de Natal, Moisés de Lima iniciou sua trajetória musical no final dos anos 1980, atuando em bandas de garagem voltadas ao blues rock e participando de festivais estudantis e apresentações na cena alternativa da capital potiguar. Instrumentista autodidata, aprendeu a tocar violão, guitarra, contrabaixo e gaita.

Ao longo da carreira, integrou bandas como Florbela Espanca, GRM Blues Band, Bourbon 33 e Os Grogs. Como compositor, participou da criação de músicas autorais presentes no disco “Mãe Luiza in Blues” e ganhou destaque no Festival MPBeco de 2008 com a canção “Natal Canibal”.

Atualmente, o músico integra as bandas Revolution 5 e The Anthologics, além de desenvolver carreira solo voltada ao blues, rock e referências da ancestralidade afro-brasileira.

Serviço

Show: “Black In” – Moisés de Lima
Data: Sábado 6
Horário: 20h
Local: Mestiços Bar e Espaço Cultural — Rua Dr. Manoel Augusto Bezerra de Araújo, 425, Ponta Negra
Couvert artístico: R$ 15