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Editorial

Os riscos e oportunidades da decisão dos EUA sobre facções

Confira o editorial do Agora RN desta terça-feira 2
Redação
02/06/2026 | 06:04

A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas inaugura uma nova fase na relação entre o combate ao crime organizado e a política internacional. Embora apresentada como medida de segurança, a iniciativa levanta dúvidas jurídicas, produz consequências econômicas relevantes e introduz um novo elemento de tensão nas relações entre Brasília e Washington.

Não há controvérsia quanto à gravidade das duas facções. PCC e CV são responsáveis por redes de tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro, além de exercerem influência sobre territórios e mercados ilícitos em diferentes regiões da América do Sul. O problema está em outro ponto: a classificação adotada pelos Estados Unidos não decorre apenas da periculosidade dos grupos, mas da equiparação deles a organizações cuja atuação historicamente está associada a objetivos políticos, ideológicos ou religiosos.

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump - Foto: Reprodução Instagram @realdonaldtrump
Os riscos e oportunidades da decisão dos EUA sobre facções - Foto: Reprodução Instagram @realdonaldtrump

É uma distinção importante. Facções criminosas e organizações terroristas podem compartilhar métodos violentos, mas nem sempre possuem a mesma natureza. Enquanto grupos terroristas buscam produzir efeitos políticos por meio do terror, as facções brasileiras atuam, essencialmente, orientadas por interesses econômicos. A finalidade principal não é transformar regimes ou impor projetos ideológicos, mas controlar mercados ilegais altamente lucrativos.

Essa diferença conceitual não impediu Washington de seguir adiante. E, uma vez tomada a decisão, pouco importa se ela agrada ou desagrada ao governo brasileiro. Seus efeitos começam a existir imediatamente.

O debate público tem se concentrado, em grande medida, na disputa política que cerca o episódio. Não por acaso. A classificação ocorreu após uma série de movimentos diplomáticos e contatos entre lideranças brasileiras da oposição e integrantes do governo americano. O Palácio do Planalto reagiu com críticas duras, acusando adversários de buscar interferência estrangeira em assuntos internos do país. A oposição, por sua vez, apresenta a medida como reconhecimento internacional da gravidade do crime organizado brasileiro.

É previsível que o tema seja explorado eleitoralmente. Em um ambiente político cada vez mais polarizado, qualquer decisão com repercussão internacional tende a ser transformada em instrumento de disputa doméstica. Mas reduzir a discussão a esse aspecto seria um erro.

A questão central não é quem ganha ou perde dividendos políticos com a medida. O ponto relevante é compreender quais serão seus efeitos práticos.

Entre as hipóteses mais alarmistas que surgiram desde o anúncio está a de algum tipo de intervenção direta dos Estados Unidos em território brasileiro. Trata-se de um cenário improvável e pouco compatível com a realidade das relações entre os dois países. O Brasil possui instituições consolidadas, cooperação policial estruturada e mecanismos próprios de combate ao crime organizado. Não há qualquer indicação concreta de que Washington pretenda ultrapassar esses limites.

Os impactos mais relevantes devem ocorrer em outra esfera: a financeira e regulatória.

A partir da nova classificação, instituições financeiras, empresas e operadores econômicos que mantenham relações com o mercado internacional tendem a ampliar seus mecanismos de controle para evitar qualquer vínculo, ainda que indireto, com indivíduos ou empresas eventualmente ligados às facções. O resultado imediato é o aumento dos custos de conformidade, auditoria e monitoramento.

Esse movimento pode gerar efeitos positivos. Organizações criminosas prosperam justamente em ambientes onde a fiscalização é insuficiente e o rastreamento financeiro encontra dificuldades. Quanto maior o escrutínio sobre fluxos de recursos, mais difícil se torna a operação dessas redes.

Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que medidas dessa natureza ampliam significativamente o alcance da legislação americana sobre atividades realizadas fora de seu território. Não se trata apenas de congelamento de ativos ou restrições bancárias. Em determinadas circunstâncias, a nova classificação pode abrir espaço para responsabilizações mais severas e para a expansão da influência regulatória dos Estados Unidos sobre operações internacionais.

É justamente nesse ponto que surgem as preocupações legítimas.

O histórico recente da política americana mostra que instrumentos jurídicos e econômicos podem ser utilizados de forma seletiva ou influenciados por interesses políticos. Nenhum país deveria ignorar esse risco. O combate ao crime organizado é uma necessidade permanente, mas também exige critérios claros, segurança jurídica e respeito às soberanias nacionais.

O desafio do Brasil, portanto, não está em transformar o episódio em mais um capítulo da guerra política entre governo e oposição. Está em agir com pragmatismo.

Se a nova classificação resultar em mais cooperação internacional, maior intercâmbio de informações e aperfeiçoamento dos mecanismos de combate às organizações criminosas, haverá ganhos concretos para a segurança pública. Se servir apenas para alimentar discursos eleitorais de parte a parte, pouco acrescentará ao enfrentamento de um problema que há décadas desafia o Estado brasileiro.

PCC e CV continuam sendo uma ameaça real, independentemente do rótulo adotado por Washington. O que interessa ao país não é a terminologia utilizada pelo governo americano, mas a capacidade efetiva de enfraquecer essas organizações. O combate ao crime organizado exige inteligência, coordenação institucional e cooperação internacional. Exige, sobretudo, menos retórica e mais resultados.