As maiores crises políticas da história não alcançariam seus respectivos patamares não fosse a participação ativa de uma engrenagem (ainda) fundamental da nossa sociedade: a imprensa. Ao longo da história, os jornalistas tem apurado, investigado, checado e escrito aquilo que tem encontrado em seu caminho e que são relevantes para a comunidade que os cerca. Mas o que realmente ganha as ruas, em grande parte das vezes, está conectado com interesses difusos daquilo que interessa à sociedade. A exemplo, a contraposição entre o “Watergate” e as eleições municipais de Natal, em 2024, distantes em tempo e quilômetros. Nos mais diversos sentidos.
Enquanto o episódio de 17 de junho de 1972, nos Estados Unidos, a tentativa de invasão do escritório do comitê nacional do Partido Democrata resultou em uma investigação jornalística que provocou a renúncia de um presidente da República, nos costados de Felipe Camarão, uma denúncia do Ministério Público do RN ganhou atenção tímida. O órgão denunciou o abuso de poder político e econômico no pleito de 2024 e o episódio foi noticiado – e só. Sem as eventuais repercussões que um caso da gravidade exposta poderia gerar.

Foi pedida a cassação do atual prefeito de Natal, Paulinho Freire, e da vice-prefeita, Joanna Guerra, além da inelegibilidade deles e dos vereadores Daniel Rendall e Irapoã Nóbrega e do ex-prefeito, Álvaro Dias, por oito anos. A peça de acusação narra situações, expõe prints de conversa em aplicativos de mensagem, planilhas, áudios, fotos e outras tantas evidências que fazem do personagem “Garganta Profunda” – fonte sigilosa do caso dos Estados Unidos – parecer uma fofoqueira de calçada em fim de tarde.
Ao que está posto, a pressão por apoio político em troca de manutenção ou ganho de cargos acontecia à luz do dia, sem pudor. Uma movimentação antinatural gritada aos quatro ventos que encontraram a surdez seletiva de parte da mídia. Vídeos, prints e outras mídias circularam – mas não ganharam eco. Ainda em meio aos debates públicos, diversos episódios e indícios foram levantados, mas não geraram interesse na investigação jornalística. Os fatos, por si, deveriam ser o suficiente para movimentar as águas.
Mas a vida está nos detalhes. E neste caso, é justamente a aliteração da notícia, a repetição da narrativa em seus meandros, que faz com que um episódio da vida pública ganhe raízes sólidas no imaginário da opinião pública. Da mesma forma, quando há uma escolha pela omissão ou mesmo a publicação como uma peça qualquer da prateleira, a sociedade acaba por tornar tal quase inexistente. E isso interessa a alguém. A poucos, diria. Justamente aos que ditam os rumos da sociedade que reproduz a dinâmica do poder. Por isso, jornalismo independente é fundamental. No contraponto da balança, ao lado da opinião pública, para desafiar os segredos que sustentam o topo da pirâmide.