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Thiago Medeiros

As mulheres invisíveis que sustentam o desenvolvimento do RN

Confira o artigo de Thiago Medeiros desta quinta-feira 11
Thiago Medeiros
11/06/2026 | 05:26

Existe um Rio Grande do Norte que raramente ocupa as manchetes, aparece nos discursos oficiais ou ganha espaço proporcional nos debates sobre desenvolvimento. É o RN construído diariamente pelas mulheres do campo.

São agricultoras familiares, assentadas da reforma agrária, pescadoras artesanais, quilombolas e trabalhadoras rurais, que, há décadas, sustentam comunidades inteiras por meio do trabalho, da produção de alimentos e da preservação de saberes que atravessam gerações.

As mulheres invisíveis que sustentam o desenvolvimento do RN - Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil/Arquivo
As mulheres invisíveis que sustentam o desenvolvimento do RN - Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil/Arquivo

Durante muito tempo, esse protagonismo permaneceu invisível. Produziram riqueza sem reconhecimento, trabalharam sem remuneração formal e ajudaram a movimentar economias locais sem aparecer nas estatísticas que medem o crescimento econômico. Ainda assim, permaneceram como uma das principais forças de sustentação social do interior brasileiro.

Por isso, o reconhecimento de 2026 pela ONU e pela FAO como o Ano Internacional da Mulher Agricultora possui um significado que vai muito além do simbolismo. Trata-se de uma afirmação política: o desenvolvimento rural não pode mais ser discutido sem considerar o papel central desempenhado pelas mulheres.

No Rio Grande do Norte, essa discussão ganha contornos ainda mais relevantes. O estado possui uma trajetória histórica marcada pelo protagonismo feminino. Foi aqui que o Brasil registrou sua primeira eleitora e que a América Latina conheceu sua primeira prefeita, Alzira Soriano. Mas talvez a maior expressão da liderança feminina potiguar não esteja apenas nos marcos institucionais.

Ela está no semiárido.

Está nas mulheres que aprenderam a conviver com a escassez hídrica, a preservar sementes crioulas, a organizar associações comunitárias e a garantir a segurança alimentar de milhares de famílias. Em muitos casos, elas construíram soluções para os problemas locais antes mesmo que o poder público chegasse aos territórios.

Quando organizam cooperativas, fortalecem cadeias produtivas, promovem a comercialização da agricultura familiar e ampliam a renda das famílias rurais, essas mulheres estão realizando uma das tarefas mais importantes da política pública: gerar desenvolvimento com inclusão social.

É justamente por isso que políticas voltadas para as mulheres rurais não devem ser vistas como benefícios setoriais. São investimentos estratégicos. Quando uma agricultora tem acesso ao crédito, à assistência técnica, à água, à energia ou à capacitação, os resultados ultrapassam a dimensão individual e alcançam toda a comunidade.

O desafio que se impõe agora é transformar o reconhecimento internacional em ações concretas. Isso significa ampliar oportunidades, fortalecer cooperativas femininas, democratizar o acesso aos programas públicos e combater as desigualdades que ainda marcam a vida das mulheres do campo.

O desenvolvimento do Rio Grande do Norte passa necessariamente por essa agenda. Afinal, quem sustentou o semiárido durante décadas merece deixar de ser invisível e ocupar o lugar de protagonista que sempre lhe pertenceu.

Thiago Medeiros é sociólogo