Nos últimos meses, uma parte da direita brasileira ensaiou construir a narrativa de que Flávio Bolsonaro tentava ocupar um espaço mais moderado dentro do bolsonarismo. O chamado “Flavinho paz e amor” aparecia em gestos calculados, discursos menos explosivos e movimentos que buscavam dialogar com setores fora da bolha ideológica mais radical. Mas os acontecimentos recentes mostram que essa estratégia foi deixada de lado ou talvez nunca tenha existido de fato.
A fotografia ao lado de Donald Trump simboliza bem esse movimento de retorno ao bolsonarismo raiz. O gesto foi pensado para reafirmar identidade com a base mais fiel do ex-presidente Jair Bolsonaro, especialmente aquele eleitorado que enxerga em Trump uma referência política e cultural. Não foi uma imagem produzida para conquistar novos públicos. Foi um recado interno, direcionado aos cerca de 30% do eleitorado que ainda sustentam o núcleo duro bolsonarista.

A lógica é clara: em um momento de fragmentação da direita, manter a militância mobilizada passou a ser mais importante do que ampliar pontes. O problema é que esse tipo de movimento também produz efeitos colaterais fora da bolha ideológica. Para a média do eleitor brasileiro, a imagem teve pouco impacto positivo. Em vez de projetar liderança internacional ou protagonismo político, a cena acabou transmitindo outra percepção: a de um Flávio em posição secundária, quase como figurante em torno do ex-presidente americano.
Na política contemporânea, símbolos importam tanto quanto palavras. E a fotografia revelou mais do que talvez seus estrategistas desejassem. A disposição corporal dos personagens, a centralidade de Trump e a postura de Flávio reforçaram uma relação de subordinação política e simbólica. Para parte do bolsonarismo radical, isso pode até ser interpretado como alinhamento ideológico legítimo. Mas para o eleitor médio brasileiro, preocupado com inflação, segurança e renda, o gesto parece distante das prioridades reais do país.
Além disso, o cenário de 2026 deve intensificar ainda mais a disputa dentro do campo conservador. Com a direita buscando reorganização nacional e novas lideranças tentando ocupar espaço, Flávio percebe que sua sobrevivência política depende menos de moderação e mais de fidelidade ao núcleo ideológico do bolsonarismo. Em um ambiente dominado pela radicalização digital e pela disputa permanente de narrativa, qualquer sinal de afastamento do pai seria interpretado como fraqueza por sua própria base.
A consequência disso é que Flávio tende a abandonar qualquer tentativa de construir uma identidade própria e moderada. O caminho escolhido aponta para uma radicalização discursiva cada vez maior, alinhada diretamente ao DNA político do pai. Afinal, dentro do bolsonarismo, afastar-se do núcleo ideológico significa correr o risco de perder relevância.
No fim, a conta política parece simples: melhor garantir os 30% mais fiéis do que tentar disputar um centro político que exige moderação, autonomia e capacidade de diálogo, características que, ao menos neste momento, Flávio demonstra não querer representar.