Toda eleição é, por natureza, um processo de polarização. Candidatos disputam projetos, narrativas, prioridades e visões de futuro. Não existe eleição sem confronto de ideias. O que precisa ser diferenciado, porém, é a polarização natural da democracia daquela construída a partir da tentativa de reproduzir, no plano estadual, o embate ideológico que domina a política nacional.
É justamente essa segunda polarização que interessa, neste momento, às campanhas de Cadu Xavier e Álvaro Dias. A lógica é relativamente simples: se a disputa nacional entre lulismo e bolsonarismo conseguir capturar a atenção da opinião pública potiguar, cresce a probabilidade de que os eleitores mais identificados com esses dois campos escolham os candidatos vistos como seus representantes locais. Em outras palavras, ambos têm interesse em transformar a eleição para o Governo do Estado em um reflexo da disputa Brasília versus oposição.

A estratégia faz sentido do ponto de vista eleitoral, sobretudo porque um eventual segundo turno entre os dois produziria uma disputa mais previsível para ambos. Entretanto, existe um obstáculo que a experiência das eleições estaduais costuma demonstrar: o eleitor nem sempre replica automaticamente seu comportamento nacional quando escolhe governador.
No Rio Grande do Norte, questões ligadas à gestão pública, infraestrutura, saúde, segurança e desenvolvimento econômico frequentemente pesam tanto quanto, ou até mais do que, os grandes debates ideológicos. A eleição estadual possui dinâmica própria e exige respostas para problemas locais.
No artigo anterior, tratei da existência de quatro grandes grupos de eleitores. Os bolsonaristas, ao que tudo indica, caminham cada vez mais para Álvaro Dias, reduzindo o espaço que antes existia para Allyson Bezerra nesse segmento. Entre os lulistas, porém, o cenário é mais complexo.
Há um grupo que aprova o governo Fátima Bezerra e tende a migrar naturalmente para Cadu Xavier. Mas existe outro segmento igualmente identificado com Lula que não aprova a gestão estadual. É justamente aí que reside o principal desafio da campanha governista.
Para esse eleitor, a polarização nacional, sozinha, talvez não seja suficiente. Cadu precisa percorrer dois caminhos simultaneamente: ampliar a aprovação do governo estadual para facilitar essa migração ou investir naquilo que toda campanha bem-sucedida sabe fazer: convencer. Convencer exige identificação, propostas e diálogo com um eleitor que, até agora, demonstra avaliar a eleição muito mais pelos problemas do Rio Grande do Norte do que por uma disputa ideológica.
Há ainda outro elemento estratégico. As projeções sobre a divisão do horário eleitoral indicam que Allyson Bezerra tende a entrar na campanha com uma vantagem de tempo no rádio e na televisão em relação aos principais adversários, o que amplia sua capacidade de pautar o debate e apresentar sua narrativa ao eleitor.
Entre o desejo de polarizar e a realidade das urnas existe uma distância considerável. Estratégias importam, mas dificilmente substituem a capacidade de dialogar com as demandas concretas da população. No fim das contas, convencer continua sendo uma ferramenta política mais poderosa do que simplesmente polarizar.