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Informe do Correio

Allyson enfrenta desgaste por vender gato por lebre

Confira os destaques da coluna Informe do Correio, publicada em O CORREIO DE HOJE nesta quinta-feira 11
Por O Correio de Hoje
11/06/2026 | 16:05

Allyson Bezerra construiu sua pré-candidatura ao Governo do Rio Grande do Norte sobre uma imagem poderosa: a de gestor jovem, eficiente, realizador e capaz de entregar em Mossoró o que adversários não conseguiram fazer em Natal ou no Governo do Estado. Essa narrativa funcionou até aqui. O ex-prefeito lidera a maior parte das pesquisas divulgadas, atravessou a pré-campanha com forte presença no interior e conseguiu vender ao eleitorado a ideia de que representa uma alternativa fora da velha polarização. Mas agora começa a enfrentar um desgaste perigoso, justamente no ponto em que sempre tentou se apresentar como mais forte: a capacidade de fazer e entregar.

O centro da nova crise é o Hospital Municipal Francisca Conceição da Silva, em Mossoró. A obra foi apresentada como marco histórico da saúde local, o primeiro hospital municipal da cidade, inaugurado com pompa, discurso de eficiência e forte aproveitamento político. O problema é que, à medida que a pré-campanha avança, cresce também a contestação sobre o tamanho real da entrega. O equipamento existe, funciona, realiza atendimentos e cirurgias eletivas. Isso não pode ser negado. Mas a pergunta que passou a ser explorada pelos adversários é outra: aquilo que Allyson chama de hospital corresponde, de fato, ao que a população entende por hospital?

Informe do Correio

A discussão não é meramente semântica. As críticas apontam que a unidade não funciona 24 horas, não abre nos fins de semana, não atende urgência e emergência, não dispõe de UTI e realiza procedimentos eletivos de baixa ou média complexidade. Para os adversários, o equipamento se aproxima mais de uma policlínica estruturada do que de um hospital completo. Para Allyson e seus aliados, a resposta é simples: a estrutura foi entregue, está funcionando, atende pessoas e ajuda a reduzir filas. Nesse embate, cada lado escolhe o ângulo que mais lhe interessa.

O problema político de Allyson está justamente aí. O hospital não nasceu apenas como uma obra de saúde. Nasceu também como peça de marketing. Era previsível que a campanha de 2026 colocaria a saúde no centro do debate, especialmente porque um dos seus principais adversários, Álvaro Dias, carrega o desgaste de ter inaugurado o Hospital Municipal de Natal no fim de sua gestão sem que a unidade entrasse em funcionamento. Médico, ex-prefeito da capital e pré-candidato ao Governo, Álvaro escolheu o hospital como marca para tentar dar peso administrativo ao segundo mandato, esvaziado de grandes realizações. Mas a entrega apressada virou passivo. O equipamento de Natal permaneceu fechado, acumulou promessas de abertura e se transformou numa das maiores vulnerabilidades do ex-prefeito.

Allyson enxergou a brecha. Em parceria política e institucional com a senadora Zenaide Maia, sua aliada e candidata à reeleição, viabilizou recursos e entregou uma estrutura que poderia ser chamada de hospital. A ideia era evidente: quando Álvaro fosse cobrado pelo hospital que inaugurou sem funcionar, Allyson teria uma resposta pronta. Ele diria que, em Mossoró, fez diferente. Construiu, inaugurou e colocou para funcionar. No confronto direto, a frase é forte. Enquanto um entregou uma obra sem atendimento, o outro entregou uma unidade em operação.

A estratégia tinha lógica. Mas talvez tenha pecado pelo excesso de cálculo. Em vez de conceber um hospital com todas as credenciais capazes de blindar a narrativa — funcionamento permanente, urgência, emergência, atendimento aos fins de semana, leitos de maior complexidade e estrutura compatível com uma cidade do porte de Mossoró — Allyson parece ter escolhido um caminho mais curto. Entregou algo que atende, mas que também permite contestação. Entregou o suficiente para dizer que fez, mas não o bastante para encerrar o debate.

É aí que o desgaste aparece. Adversários passaram a visitar o local, gravar vídeos, questionar o funcionamento e explorar a distância entre a propaganda e a estrutura real. A secretária municipal de Saúde de Mossoró, Morgana Dantas, reagiu de forma dura às críticas do secretário estadual de Saúde, Alexandre Motta, que colocou em dúvida a classificação do equipamento como hospital. A reação elevou o tom da disputa e transformou uma controvérsia administrativa em assunto político de primeira ordem. Aliados de Allyson, por sua vez, também foram ao hospital mostrar salas, atendimentos e cirurgias, tentando provar que a unidade funciona e que as críticas têm motivação eleitoral.

O debate, portanto, não é sobre a existência da obra. Ela existe. Também não é sobre sua utilidade. Ela tem utilidade. O ponto é outro: Allyson prometeu implicitamente mais do que entregou? Ao chamar de hospital um equipamento com limitações importantes, abriu espaço para a acusação de ter vendido gato por lebre. E, numa campanha majoritária, percepção pesa tanto quanto obra.

Esse flanco se soma a outro problema que já acompanha a pré-candidatura: a Operação Mederi, investigação da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União sobre suposto esquema de fraudes, contratos irregulares, sobrepreço e não entrega de medicamentos em Mossoró e outros municípios. Allyson não está condenado, e qualquer análise séria precisa registrar isso. Mas a operação já virou munição política. Em campanha, adversários não esperam sentença transitada em julgado para explorar desgaste. Eles trabalham com suspeita, imagem e repetição.

Hoje, as pesquisas ainda indicam vantagem relevante para Allyson na disputa estadual. Mas falta tempo suficiente para que a campanha mude de temperatura. Com a entrada efetiva de Álvaro Dias pela direita e de Cadu Xavier pelo campo lulista, a tendência é que a polarização aperte. Álvaro tentará transformar a eleição num confronto entre oposição e PT. Cadu tentará colar sua imagem à de Lula. Allyson, por sua vez, terá de provar que sua força não depende apenas de marketing bem embalado e de uma Mossoró apresentada como vitrine perfeita.