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Comportamento

Fofoca ajudou na evolução da humanidade, diz estudo

Estudos indicam que comentar sobre terceiros ocupa grande parte das conversas e pode estar ligado à evolução social, à busca por pertencimento e aos mecanismos de recompensa do cérebro
Por O Correio de Hoje
25/06/2026 | 14:09

Falar sobre a vida dos outros é um comportamento tão presente no cotidiano que muitas vezes passa despercebido. Seja em conversas entre amigos, no ambiente de trabalho, em grupos de família ou nas redes sociais, a fofoca continua ocupando espaço significativo nas interações humanas. O fenômeno é tão comum que pesquisadores passaram a estudá-lo como uma característica importante da própria evolução da espécie.

Um levantamento realizado pela Universidade de Oxford sugere que os seres humanos dedicam até dois terços do tempo de suas conversas a comentar pessoas que não estão presentes. Embora grande parte dessas trocas tenha conteúdo neutro, os diálogos frequentemente envolvem avaliações, julgamentos e opiniões sobre terceiros.

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Pesquisadores apontam que fofoca ajudou a fortalecer vínculos e a organizar grupos sociais - Foto: MAGNIFIC

A constatação ajuda a explicar por que a fofoca continua tão presente mesmo em uma sociedade marcada pela velocidade da informação e pela exposição constante da vida privada. Segundo especialistas, o hábito não está necessariamente ligado apenas à maldade ou à intenção de prejudicar alguém. Ao longo da evolução humana, ele teria desempenhado funções importantes para a sobrevivência dos grupos sociais.

Em sociedades antigas, compartilhar informações sobre o comportamento de outras pessoas ajudava a identificar indivíduos confiáveis, detectar possíveis ameaças e compreender quem cooperava ou não com a comunidade. Sob essa perspectiva, a fofoca funcionava como uma ferramenta de circulação de informações sociais, contribuindo para a formação e manutenção dos grupos humanos.

Pesquisas também indicam que ouvir ou compartilhar esse tipo de informação ativa mecanismos cerebrais ligados ao prazer e à recompensa. Durante essas interações, o cérebro libera substâncias associadas à sensação de satisfação, o que ajuda a explicar por que muitas pessoas encontram dificuldade para resistir a uma conversa sobre terceiros.

Especialistas observam que a fofoca pode atuar como um elemento de fortalecimento dos vínculos sociais. Quando indivíduos compartilham opiniões semelhantes sobre determinada pessoa ou situação, criam uma sensação de pertencimento e identificação dentro do grupo. Esse mecanismo é frequentemente observado em ambientes de trabalho, círculos de amizade e outros espaços de convivência.

A importância desse comportamento para a organização social foi analisada por diversos pesquisadores. No livro Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, o historiador Yuval Noah Harari defende que a fofoca contribuiu para que os primeiros Homo sapiens formassem grupos maiores e mais coesos.

A interpretação tem origem em estudos do antropólogo e psicólogo britânico Robin Dunbar, que atribui à fofoca uma função semelhante àquela exercida pelo chamado “grooming” entre os primatas.

Nos grupos de macacos e outros primatas, o grooming consiste na limpeza mútua entre indivíduos e desempenha papel importante na criação de vínculos sociais. Segundo Dunbar, à medida que os grupos humanos cresceram e se tornaram mais numerosos, tornou-se inviável manter esse tipo de contato físico com todos os integrantes. A troca de informações sobre terceiros teria assumido então essa função de aproximação social.

Mas a fofoca também desempenha outros papéis. Especialistas observam que falar sobre alguém pode funcionar como uma forma de capturar a atenção de quem está ouvindo. Em uma sociedade marcada por excesso de informações, redes sociais e múltiplos estímulos simultâneos, despertar o interesse do interlocutor tornou-se um desafio crescente. Nesse contexto, comentários sobre terceiros frequentemente despertam curiosidade e engajamento.

O hábito também pode servir como mecanismo de proteção da própria imagem. Em algumas situações, criticar outra pessoa pode desviar a atenção de características negativas ou fragilidades daquele que fala.

As redes sociais ampliaram ainda mais esse fenômeno. Nunca foi tão fácil acompanhar a rotina de celebridades, influenciadores digitais, políticos ou até mesmo de pessoas próximas. A exposição constante oferece matéria-prima quase infinita para comentários, julgamentos e comparações.

Especialistas alertam que esse ambiente favorece uma ampliação do alcance da fofoca e aumenta a velocidade com que informações — verdadeiras ou falsas — se espalham. Além disso, o meio digital reduz barreiras de privacidade e pode transformar comentários aparentemente inofensivos em situações de grande repercussão.