O novo formato de questões adotado no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2025, baseado em um único texto para responder a vários itens, registrou desempenho abaixo do esperado entre os candidatos e deve ser ampliado na edição de 2026. Segundo levantamento da Arco Educação, o bloco de cinco questões no modelo conhecido como testlet apresentou taxa média de acerto de apenas 37%. A expectativa do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) é expandir esse formato para outras áreas da prova, o que já levou escolas a modificar a preparação dos estudantes.
O modelo foi utilizado pela primeira vez na história do Enem em 2025. Diferentemente das edições anteriores, nas quais cada texto de apoio era relacionado a apenas uma questão, a prova de Linguagens trouxe uma única crônica da escritora mineira Ana Elisa Ribeiro como base para cinco perguntas. O texto, intitulado De próprio punho, tinha 45 linhas e 2.863 caracteres, tornando-se o maior já utilizado no exame desde sua reformulação, em 2009.

De acordo com o estudo realizado pelo diretor de ensino e inovações da Arco Educação, Ademar Celedônio, apenas uma das cinco questões foi classificada como de nível fácil, enquanto as outras quatro apresentavam dificuldade considerada média, segundo critérios da Teoria de Resposta ao Item (TRI), metodologia utilizada na elaboração do Enem. Mesmo assim, o percentual de respostas corretas ficou abaixo do esperado.
Os microdados do Enem também apontaram diferenças entre os desempenhos de estudantes da rede pública e da rede privada. Enquanto os candidatos de escolas particulares alcançaram média de 51,8% de acertos no bloco, os alunos das escolas públicas registraram 33,4%, uma diferença de 18 pontos percentuais. No restante da prova de Linguagens, essa distância foi de aproximadamente 15 pontos.
Para Celedônio, o resultado indica que o novo formato exige competências que ainda não são trabalhadas de forma sistemática na maior parte das escolas.
“Não é uma diferença gigantesca, mas é relevante. Isso sugere que blocos longos de leitura podem penalizar mais quem já chega ao exame com menor repertório leitor e menor familiaridade com esse tipo de organização textual.”
Segundo o especialista, além do domínio do conteúdo, o estudante precisa desenvolver estratégias de leitura capazes de sustentar a compreensão de textos mais extensos.
“Não é só uma questão de conteúdo, é também método de leitura. A preparação precisa sair do treino de questões soltas e incluir blocos de leitura. O aluno deve aprender a permanecer no texto de até 50 linhas, voltar a ele e responder perguntas diferentes sem perder a compreensão global.”
O modelo testlet consiste em um conjunto de questões independentes que compartilham um mesmo texto, gráfico, imagem ou situação-problema como referência. A metodologia já é utilizada em exames internacionais, como o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa).
Segundo o Inep, além de permitir a redução da quantidade de textos presentes na prova, o formato favorece uma avaliação mais aprofundada da interpretação e da capacidade de relacionar informações.
O presidente do Inep, Manuel Palacios, já sinalizou que a proposta será ampliada. “(Estamos trabalhando em) aprimoramentos nos modelos de itens, como já foi feito com os testlets para leitura e provavelmente vamos introduzi-los em Ciências da Natureza e Matemática.” A declaração foi feita durante um seminário sobre o Enem realizado em abril deste ano.
Com a confirmação de que o formato permanecerá no exame, instituições de ensino já passaram a incluir o modelo em simulados e atividades preparatórias. Para Márcio Romão, coordenador da 3ª série do Ensino Médio do Colégio Franco, no Rio de Janeiro, o testlet amplia a capacidade de avaliação do exame.
“Esse formato permite avaliar competências mais complexas do que questões isoladas. O estudante precisa conseguir selecionar informações relevantes para cada item, estabelecer relações entre dados e mobilizar conhecimentos de diferentes áreas a partir de um mesmo contexto. Mais do que preparar para uma prova, esse trabalho fortalece habilidades de leitura crítica, análise e tomada de decisão, cada vez mais importantes na formação acadêmica e profissional.”
Na avaliação de Vânia Fonseca Longhi Macarrão, professora de Biologia do Ensino Médio da Escola Lourenço Castanho, em São Paulo, a tendência é que Ciências da Natureza seja uma das áreas mais impactadas pela mudança. Segundo ela, os estudantes precisarão ampliar o treinamento voltado à interpretação de gráficos, análise de dados e resolução de problemas inspirados em avaliações internacionais.
“A prova trata o aluno como alguém que precisa usar ciência para resolver problemas reais.”
O professor de Matemática da mesma instituição, Henrique Nogueira Magalhães, avalia que o novo formato aproxima ainda mais a disciplina de situações práticas do cotidiano.
Segundo ele, conteúdos como porcentagem, probabilidade e matemática financeira tendem a aparecer inseridos em contextos mais amplos, exigindo interpretação antes da realização dos cálculos. “Sem uma boa leitura e filtragem das informações, o aluno fica mais suscetível a erros.”
Em nota, o Inep informou que a metodologia continuará presente na edição de 2026 do Enem. Segundo o instituto, a utilização dos testlets diversifica a estrutura da prova e pode contribuir para “aumentar o engajamento do participante, reduzindo a chance deste responder mecanicamente aos itens”. O órgão diz que o formato permite trabalhar textos em maior extensão e próximos de sua integralidade.