A Stellantis confirmou que Peugeot e Citroën continuarão presentes no mercado brasileiro, mas com um posicionamento distinto do adotado nos últimos anos. Durante apresentação a jornalistas após o evento global em que detalhou seu plano de investimentos até 2030, o presidente da companhia na América do Sul, Hernander Zola, afirmou que as duas marcas passarão por um processo de reposicionamento, deixando de disputar espaço no segmento de entrada e apostando em produtos de maior valor agregado desenvolvidos em parceria com a chinesa Dongfeng.
A ausência de referências às duas fabricantes francesas na apresentação do plano estratégico para o Brasil havia levantado dúvidas sobre o futuro das marcas no País. Segundo Zola, no entanto, Peugeot e Citroën permanecem nos planos da companhia, principalmente pela relevância que ainda mantêm em outros mercados sul-americanos. O executivo afirmou que a estratégia está ligada ao acordo firmado entre Stellantis e Dongfeng para compartilhamento de plataformas e desenvolvimento conjunto de veículos destinados à região.

O presidente da Stellantis reconheceu que a condução das operações das duas marcas no Brasil apresentou falhas desde a formação do grupo, em 2021. Segundo ele, Peugeot e Citroën seguiram projetos concebidos antes da fusão entre FCA e PSA, quando competiam diretamente com a Fiat no segmento de maior volume. “Hoje, percebemos que essa concorrência não faz mais sentido. Estamos buscando uma complementariedade de portfólio”, afirmou.
No novo desenho estratégico, a Peugeot deverá assumir um posicionamento mais próximo do segmento premium, concentrando-se em veículos de menor volume de vendas e maior margem. A Citroën também deixará gradualmente o mercado de entrada, embora o executivo não tenha detalhado qual será sua nova identidade comercial.
A mudança deverá provocar, ao longo dos próximos anos, uma renovação completa da atual linha de produtos produzida na América do Sul. Modelos como Citroën C3, Aircross e Basalt, fabricados em Porto Real (RJ), além dos Peugeot 208 e 2008, produzidos na unidade de El Palomar, na Argentina, tendem a ser substituídos gradualmente. Segundo Zola, a transição será conduzida de forma escalonada para permitir o retorno dos investimentos realizados nas atuais plataformas.
Um dos movimentos previstos pela empresa é o retorno da produção de pelo menos um modelo da Peugeot ao Brasil. O executivo atribuiu parte das dificuldades da marca à decisão de concentrar toda a fabricação na Argentina, tomada em um contexto diferente das atuais relações comerciais entre os dois países.
A parceria com a Dongfeng será o principal instrumento para essa nova fase. De acordo com Zola, futuros modelos Peugeot e Citroën utilizarão plataformas desenvolvidas pela montadora chinesa, embora ainda não esteja definido se haverá produção conjunta nas fábricas brasileiras. Os veículos também não serão, necessariamente, adaptações dos conceitos apresentados pela Peugeot no Salão de Pequim de 2026, mas produtos concebidos especificamente para o mercado sul-americano.
Entre as possibilidades estudadas está a fabricação de novos veículos em Porto Real (RJ), substituindo a atual linha de modelos de entrada da Citroën. A Stellantis também avalia produzir automóveis sob a marca DFM, nome que será utilizado pela Dongfeng no Brasil. O executivo confirmou a análise, mas não revelou cronograma ou modelos envolvidos.
A parceria, entretanto, deverá ser exclusiva. Segundo Zola, a Stellantis não pretende dividir o projeto com outra fabricante instalada no País. A declaração ocorre em meio às negociações da Dongfeng com a Nissan e ao interesse da empresa chinesa pela antiga fábrica de motores de Campo Largo (PR). “Ou a Dongfeng vai produzir com a gente, ou com a Nissan. Com as duas simultaneamente eu acho praticamente impossível”, afirmou.
Além do reposicionamento de Peugeot e Citroën, o plano Fastlane, que orienta os investimentos da Stellantis no Brasil até 2030, prevê uma nova geração do Fiat Argo, três novos SUVs da Fiat — incluindo um modelo inédito de sete lugares —, novas gerações de Jeep Renegade, Compass e Commander, além das futuras Fiat Strada, Toro e Ram Rampage. A companhia também confirmou o desenvolvimento de uma motorização híbrida plena (HEV) flex para o mercado brasileiro, ampliando a estratégia de eletrificação da fabricante na região.