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Contas públicas

A cada R$ 100 gastos com pessoal no RN, só R$ 61 vão para quem está trabalhando

Estado destina a menor parcela do Nordeste aos servidores da ativa e é o 6º menor do país; são 63 mil aposentados e pensionistas para 54 mil funcionários em exercício
Agora RN
18/08/2026 | 22:21

De cada R$ 100 que o Rio Grande do Norte gasta com pessoal, R$ 61 chegam a quem está efetivamente trabalhando. Os R$ 39 restantes vão para aposentadorias, pensões e contratos de terceirização. É a menor proporção do Nordeste e a sexta menor entre as 27 unidades da Federação.

O dado consta do estudo “Raio-X da gestão de pessoas”, realizado pela República.org em parceria com a RioAgora.org e publicado pelo jornal O Globo. O levantamento compara quanto cada estado destina aos servidores ativos em relação ao conjunto das despesas de pessoal.

Fachada do prédio do Instituto de Previdência dos Servidores do Estado do Rio Grande do Norte, com o letreiro Ipern à frente do jardim
Sede do Ipern, instituto que administra a Previdência dos servidores estaduais: o Estado tem 63 mil aposentados e pensionistas para 54 mil servidores na ativa — Foto: Arquivo/Agora RN

No ranking nacional, apenas cinco estados apresentam parcela menor: Rio de Janeiro, com 56%; Rio Grande do Sul, com 57%; São Paulo e Minas Gerais, ambos com 59%; e Espírito Santo, com 60%. O contraste com os vizinhos é o dado mais revelador — no Nordeste, o segundo colocado é a Bahia, com 63%, e a Paraíba lidera com 74%.

A pirâmide invertida

A explicação está na composição do quadro. Em abril, o presidente do Instituto de Previdência dos Servidores do Estado, Nereu Linhares, informou ao Agora RN que o Rio Grande do Norte tinha 54 mil servidores ativos, 49 mil aposentados e 14 mil pensionistas. São 63 mil beneficiários da Previdência estadual — 9 mil a mais do que o total de funcionários em atividade.

Segundo o Ipern, 52% da massa vinculada ao regime próprio é hoje composta por inativos, contra 48% de ativos. O órgão descreve o quadro como uma pirâmide invertida: há menos gente contribuindo do que recebendo. Concursos ampliam a base de contribuintes, mas o efeito é gradual.

A conta fecha no vermelho. Em 2025, as receitas previdenciárias somaram R$ 3,537 bilhões e as despesas com benefícios alcançaram R$ 5,559 bilhões — déficit superior a R$ 2 bilhões, coberto pelo Tesouro Estadual com recursos que poderiam ir para outras despesas e investimentos.

O desequilíbrio ainda se agrava. Entre 2023 e 2025, a receita do sistema cresceu 9,4% enquanto a despesa avançou 15%. Em valores absolutos, o resultado negativo piorou em mais de R$ 420 milhões em dois anos, sendo cerca de R$ 300 milhões apenas entre 2024 e 2025.

Há um fator adicional: a paridade concedida a servidores mais antigos, que assegura a determinados inativos os mesmos reajustes dos ativos. A regra deixou de valer para quem ingressou após a Emenda Constitucional nº 41, de 2003, mas continua alcançando os admitidos antes disso.

Acima do teto da LRF

O peso previdenciário se soma a outro indicador desfavorável. Dados do boletim RREO em Foco, da Secretaria do Tesouro Nacional, colocaram o Rio Grande do Norte na liderança nacional da despesa com Previdência em 2025: a função respondeu por 34% de todos os gastos estaduais. O Rio de Janeiro veio em segundo, com 24% — dez pontos percentuais abaixo.

No primeiro quadrimestre de 2026, encerrado em abril, o Estado destinou 56,12% da Receita Corrente Líquida Ajustada à folha do Executivo, o maior percentual do país. O número está acima do limite máximo de 49% fixado pela Lei de Responsabilidade Fiscal — e, portanto, acima também dos patamares de alerta e prudencial. A Receita Corrente Líquida usada no cálculo somava R$ 20,11 bilhões em 12 meses, enquanto a despesa total de pessoal do Executivo chegou a R$ 11,28 bilhões. Houve leve recuo diante dos 56,41% do fechamento de 2025, mas o Estado permaneceu fora dos limites legais.

O que está sendo feito

A projeção do Ipern não é de alívio rápido. Nereu Linhares afirmou em abril que o déficit deve continuar crescendo até aproximadamente 2035, com estabilização e redução posteriores, à medida que diminua o número de beneficiários alcançados pelas regras antigas.

Em 14 de agosto, a governadora Fátima Bezerra anunciou um plano de reestruturação da Previdência estadual que inclui obrigações patronais dos demais Poderes e deverá ser apresentado ao Judiciário. A cobrança não é nova: em setembro de 2025, o Tribunal de Contas do Estado já havia exigido um plano para evitar o colapso do regime próprio. O estudo foi noticiado originalmente por O Correio de Hoje, em reportagem sobre a parcela das despesas de pessoal destinada aos servidores em atividade.