A produção agrícola do RN somou R$ 3,92 bilhões em 2025. Em 2024, o valor tinha sido de R$ 3,61 bilhões, o que dá uma alta de 8,65% em termos nominais, isto é, sem descontar a inflação do período. Três culturas carregaram o resultado: cana-de-açúcar, banana e melão, que juntas responderam por 56,49% do valor gerado pelas lavouras do Estado. Em outras palavras, de cada R$ 100 que a agricultura potiguar produziu, mais de R$ 56 vieram dessas três. Os números são da Produção Agrícola Municipal (PAM), levantamento anual que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) faz cidade por cidade e que foi divulgado na quinta-feira 17.
O crescimento em valor veio apesar da queda de uma das culturas mais importantes. A produção de melão encolheu 28,27% em 2025, para 362,4 mil toneladas, contra 505,2 mil toneladas em 2024. A retração veio junto com a redução de área plantada em cidades do Oeste, principalmente Mossoró e Apodi, mas o Rio Grande do Norte continua sendo o maior produtor da fruta no país.

O resultado potiguar aconteceu num ano de crescimento mais forte da agricultura brasileira. No país, as lavouras renderam em 2025 um valor recorde: R$ 927,2 bilhões. Na comparação com 2024, o salto foi de 18,4%. A recuperação foi puxada sobretudo pelos grãos, que tinham sofrido com o clima ruim no ano anterior. A colheita de cereais, leguminosas e oleaginosas, grupo que reúne produtos como soja, milho, arroz e feijão, chegou a 345,4 milhões de toneladas, 18,2% a mais.
No Rio Grande do Norte, o desenho é outro, bem diferente do que se vê nos Estados que vivem da soja e do milho. Na divisão do valor agrícola potiguar, a cana-de-açúcar fica com 19,36%. Logo atrás aparecem a banana em cacho, com 18,62%, e o melão, com 18,51%. As três culturas, sozinhas, movimentaram mais de R$ 2,2 bilhões.
A distribuição da produção pelo mapa também revela polos com vocações bem distintas. O Oeste e o Vale do Açu têm forte presença da fruticultura irrigada, que depende de água puxada de poços e de rios para produzir no semiárido, enquanto o Litoral Sul, de clima mais úmido, concentra a cana. Um estudo do Incra sobre o mercado de terras destaca três polos, Mossoró, Apodi e Vale do Açu, como áreas de agricultura irrigada com mais tecnologia e mais integradas às cadeias de venda e de exportação.
Baraúna é líder
Baraúna fechou 2025 como o município com o maior valor de produção agrícola do Estado: R$ 415 milhões. Entre as culturas que garantiram esse primeiro lugar estão o melão, a banana e o mamão. A cidade fica no Oeste potiguar, dentro de um dos principais polos de fruticultura irrigada do RN.
Em segundo lugar vem Alto do Rodrigues, no Vale do Açu, com R$ 354 milhões, resultado em que pesaram a banana, o mamão e o coco-da-baía. Touros, no Litoral Norte, ficou em terceiro, com R$ 235 milhões e uma pauta que inclui banana, abacaxi e batata-doce.
Juntos, os três municípios somaram cerca de R$ 1 bilhão, aproximadamente um quarto de toda a produção agrícola potiguar. Os outros três quartos se espalham pelos demais municípios do Estado.
A cana-de-açúcar mostra outro tipo de concentração, agora dentro de cada município. Em Goianinha, uma das cidades canavieiras do Litoral Sul, ela respondeu por 97,96% do valor agrícola do município, ou R$ 191 milhões. Em Baía Formosa, a fatia chegou a 99,28%, com R$ 148 milhões. Em Canguaretama, vizinha às duas, foram 97,15%, ou R$ 122 milhões.
Essa dependência quase total ajuda a entender por que a cana aparece em primeiro lugar na composição do valor agrícola do Estado. As frutas se espalham por cidades do Oeste, do Vale do Açu e do Litoral Norte, mas a cana tem peso muito alto nos municípios onde está plantada.
Melão perde produção
A principal notícia negativa da PAM potiguar veio do melão. Foram 362.378 toneladas colhidas no Estado em 2025, contra 505.212 toneladas um ano antes, recuo de 28,27%. Dos 21 municípios em que o IBGE encontrou o cultivo, 11 tiveram queda na produção.
A maior perda em números absolutos, aquela medida em toneladas, ficou com Mossoró. A área plantada ou destinada à colheita encolheu praticamente pela metade: eram 8,3 mil hectares, e sobraram 4,2 mil. A quantidade colhida seguiu o mesmo caminho e baixou de 218.373 toneladas para 109.200 toneladas, uma queda de 49,99%.
Mesmo assim, Mossoró continua sendo o maior produtor municipal de melão do Brasil. A fruta respondeu por 54,98% do valor da produção agrícola da cidade em 2025. Um ano antes, a participação era de 77,69%, o que mostra quanto a economia rural do município depende do melão.
Apodi, quarto maior produtor de melão do Estado, também encolheu, e em proporção ainda maior. Lá, a área dedicada ao melão caiu de 2 mil para 700 hectares. Na colheita, o tombo foi de 64,72%: de 61.502 toneladas, a produção desceu a 21.700 toneladas.
São números que pesam numa cadeia muito ligada ao mercado externo. Mossoró e outras áreas produtoras do Estado abastecem tanto o mercado interno quanto a exportação. Dados da Ceagesp, a maior central de abastecimento de frutas e hortaliças do país, colocam Mossoró e Apodi entre as principais origens do melão amarelo vendido no entreposto de São Paulo.
A logística de exportação da fruticultura potiguar não depende só dos portos do próprio Estado e passa também por outros terminais do Nordeste. Melões, melancias, mangas e uvas do Rio Grande do Norte e de outros Estados da região estão entre as principais frutas embarcadas no Porto do Pecém, no Ceará, com destino à Europa e aos Estados Unidos.
O setor ainda tenta abrir novos mercados, e a China, dona de um mercado consumidor gigantesco, é o alvo mais cobiçado. Em 2025, produtores, exportadores, órgãos de defesa agropecuária e o governo federal se reuniram em Mossoró para discutir exigências fitossanitárias e rotas comerciais para levar o melão brasileiro à China.
Castanha recua
O Rio Grande do Norte também tem posição de destaque nacional na castanha de caju. O Estado colheu 19.640 toneladas em 2025, a segunda maior quantidade do país, atrás só do Ceará e à frente do Piauí, os outros dois grandes produtores. A castanha potiguar movimentou mais de R$ 105 milhões.
Serra do Mel, conhecida pelos cajueirais, teve papel importante nesse resultado. O município do Oeste colheu 8.512 toneladas, somou R$ 53,2 milhões e fechou o ano na terceira posição entre as cidades brasileiras que mais produzem a castanha.
O desempenho, porém, ficou bem abaixo do registrado em 2024. A quantidade colhida no Estado caiu 35,76%, e o valor da produção recuou 28,01% na mesma comparação.
A queda, vale dizer, não foi um problema só do Rio Grande do Norte. Oito dos 11 Estados produtores colheram menos em 2025, e o valor da produção brasileira de castanha de caju caiu 22,60%, para R$ 572,4 milhões.
Mesmo com as perdas em melão e castanha, o Estado aparece entre os maiores produtores do país em outras culturas: está em quarto lugar em fava, mamão e melancia, em quinto no maracujá e em sexto na batata-doce e na manga.
Novas culturas
Na edição referente a 2025, a PAM passou a pesquisar 14 novas culturas agrícolas, antes fora do levantamento, o que ampliou o retrato da produção dos municípios. No Rio Grande do Norte, apareceram cultivos como abóbora, milho verde, acerola, pimentão, alface e graviola, muitos deles produzidos em pequenas propriedades e vendidos em feiras e mercados locais.
O milho verde potiguar chegou a 14.873 toneladas, plantado em 76 municípios, com mais de R$ 35 milhões em valor de produção. Santo Antônio, no Agreste, liderou, com 3.120 toneladas e R$ 7,8 milhões. Touros vem em segundo (1.282 toneladas), seguido de perto por Vera Cruz (1.240) e por Baraúna (1.228).
A abóbora, outra novidade do levantamento, somou 21.351 toneladas em 37 municípios. De novo, Baraúna aparece no topo: foram 9.055 toneladas, que valeram mais de R$ 8,6 milhões. Touros produziu 5.853 toneladas, e Rio do Fogo, 1.800 toneladas. Somando o Estado todo, a cultura rendeu mais de R$ 30,8 milhões no ano.
Os dados dessas culturas recém-incluídas mostram uma produção mais variada do que a que aparece só nos produtos de maior valor. Baraúna, por exemplo, lidera o ranking estadual graças sobretudo às frutas, mas também está entre os maiores produtores de milho verde e responde pela maior colheita de abóbora do Estado.
O retrato do campo potiguar que sai da PAM tem, portanto, duas faces. Numa, o valor total produzido subiu R$ 312 milhões e ultrapassou a marca de R$ 3,9 bilhões, com mais da metade da receita concentrada em três culturas, cana, banana e melão. Na outra, culturas em que o Estado tem posição de liderança no país, como o melão e a castanha de caju, fecharam o ano com volume menor. É sinal de que a alta do valor não se espalhou por igual entre produtos e municípios.