O preço do petróleo voltou a subir na terça-feira 15, empurrado pela dúvida sobre a capacidade de a Arábia Saudita manter suas exportações depois dos ataques contra a infraestrutura de energia do país, que é um dos maiores produtores e exportadores do mundo. O Brent, referência global para o barril comercializado no mundo, subiu 2,9% no contrato para novembro: uma alta de US$ 3,07 que levou a cotação em Londres a US$ 108,75. Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, o WTI negociado para outubro ganhou 4,38%. Foram US$ 4,44 a mais, com o barril encerrando o dia valendo US$ 105,83.
O nervosismo aumentou quando os carregamentos de petróleo foram suspensos no porto de Yanbu, que fica no Mar Vermelho, na costa oeste saudita. A parada veio na esteira dos ataques que pararam o oleoduto Leste-Oeste dos sauditas, tubulação que leva o petróleo das áreas produtoras do leste do país até a costa ocidental.

Essa estrutura ganhou peso à medida que o tráfego pelo Estreito de Ormuz encolheu, a passagem estreita entre o Irã e a Península Arábica por onde sai o petróleo carregado nos navios do Golfo. Pelo oleoduto passam cerca de 4 milhões de barris por dia até Yanbu, servindo de alternativa para não depender da rota marítima. Se a interrupção se arrastar, pode comprometer o equivalente a até 4% de todo o petróleo ofertado no mundo, segundo estimativas citadas pela agência de notícias Reuters.
Quanto tempo vai durar a paralisação no porto saudita é o que ninguém consegue dizer no momento. A avaliação de autoridades americanas é que os reparos podem levar de dias a semanas. Os sauditas também cancelaram embarques previstos para a Europa no fim de setembro, o que empurrou os compradores na direção de outras origens e deu sustentação à valorização do WTI.
No mercado físico, onde o barril é de fato comprado e entregue, o efeito aparece com mais força. Alguns carregamentos negociados na Europa passaram de US$ 130 por barril, chegando perto dos recordes de abril. O Forties, produzido no Mar do Norte, alcançou US$ 136,75 por barril, com as refinarias europeias correndo atrás de substitutos para o produto saudita.
A pressão sobre a oferta acontece com o Estreito de Ormuz operando muito abaixo do normal. O rastreamento de embarcações mostrou sete travessias pela passagem em 9 de setembro. Nos dez dias anteriores, a média tinha sido de 14. Por ali passa boa parte do petróleo e do gás que saem do Golfo Pérsico rumo ao mercado internacional.
Outros problemas de oferta reforçaram a alta. Na Líbia, protestos atrapalharam a produção de campos de petróleo. Somaram-se a isso os ataques contra instalações de energia russas e ucranianas, que aumentaram a preocupação sobretudo no mercado de derivados, como diesel e gasolina.
Preço de petróleo em alta traz de volta o fantasma da inflação. Barril acima de US$ 100 encarece combustível, frete e produção industrial. E isso num momento em que a instabilidade no Oriente Médio já bagunça cadeias de abastecimento e mexe com o que o mercado espera dos juros nas maiores economias do mundo.
A escalada militar joga mais incerteza no mercado. Segundo o Irã, um drone militar americano do modelo MQ-1 foi derrubado na terça-feira sobre o próprio Estreito de Ormuz. A versão saiu na mídia estatal iraniana, atribuída à Guarda Revolucionária, e ninguém confirmou o episódio de forma independente até agora.
A guerra também aperta os arsenais americanos. Relatórios recentes mostram queda no estoque de armamento de precisão de longo alcance e problemas para repor o que é consumido. O Escritório de Orçamento do Congresso dos Estados Unidos calculou em US$ 38 bilhões o custo do conflito com o Irã até o fim de julho, e projeta gasto adicional de cerca de US$ 3 bilhões a cada mês, caso as operações não parem.
Para o mercado de petróleo, o que mais vai pesar nos próximos dias é a capacidade saudita de religar o oleoduto Leste-Oeste e retomar os embarques de Yanbu. Enquanto Ormuz seguir com circulação reduzida, uma parada longa da rota saudita estreita os caminhos para levar o produto do Golfo a quem compra lá fora e deixa as cotações à mercê de qualquer novo episódio de tensão na região.