Dentro de uma Unidade de Terapia Intensiva, o dia é feito de pacientes em estado crítico, decisões médicas sem intervalo e situações em que minutos mudam o rumo do atendimento. Para parte de quem trabalha ali, a pressão cobra um preço que não aparece no prontuário: o burnout entre médicos de UTI já atinge níveis elevados de esgotamento mental e emocional em quase metade da categoria no Brasil.
O índice é de 48,5%, segundo o estudo “Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica nas UTIs Brasileiras”, feito pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) e divulgado na terça-feira 15. O esgotamento emocional é um dos principais componentes da síndrome de burnout, o adoecimento causado pelo trabalho e reconhecido como doença ocupacional, que se manifesta por exaustão, distanciamento e queda de desempenho.

Outros 31,2% dos profissionais ouvidos aparecem no nível moderado de esgotamento. Só 20,3% relataram níveis baixos. Somando os dois primeiros grupos, quatro em cada cinco médicos de UTI, 79,7% de quem respondeu, estão em algum grau que pede atenção e cuidado com a saúde emocional.
Ao todo, 2.338 profissionais responderam ao levantamento, gente espalhada pelos 26 estados brasileiros e também pelo Distrito Federal. A pesquisa examinou também outros componentes ligados ao burnout: 46,4% dos entrevistados apresentaram nível elevado de despersonalização, condição em que a pessoa se distancia emocionalmente do trabalho e de quem atende.
Já a chamada baixa realização pessoal apareceu em 15,5% dos participantes do inquérito. Aqui o problema se manifesta pela perda de propósito e de satisfação com a atividade profissional, o que acrescenta mais uma dimensão ao desgaste de quem lida diariamente com pacientes graves.
A formação de cada médico faz diferença nos números. O maior percentual de esgotamento emocional elevado ficou com os generalistas, aqueles que trabalham na terapia intensiva sem ter especialização formal na área: 52,3% deles.
Entre os que têm registro em Medicina Intensiva, o índice cai para 44,5%. E entre médicos registrados em especialidades relacionadas ao trabalho na terapia intensiva, como Clínica Médica, Cirurgia Geral, Pediatria, Cardiologia, Nefrologia, Anestesiologia e Pneumologia, o resultado ficou em 47,4%.
A saúde emocional de quem trabalha nessas unidades entra, com esses números, na lista de pontos que a organização do serviço precisa considerar. Estar sempre exposto a situações críticas, a pacientes em risco de morte e a decisões tomadas sob pressão faz parte da rotina desses médicos e vai acumulando desgaste ao longo dos anos de trabalho.
O problema não fica só em quem adoece: chega também ao atendimento prestado. O esgotamento pode comprometer a consistência do trabalho num ambiente que exige concentração, capacidade de decidir e acompanhamento permanente de quem está internado em condição grave.
De posse dos resultados, a associação quer levar o diagnóstico até as autoridades de saúde e defender a adoção de medidas de cuidado com esses profissionais. A entidade sustenta que a saúde mental de quem trabalha nas UTIs não é só questão individual: envolve condições de trabalho, gestão das equipes e qualidade da assistência.
O retrato que sai do inquérito é o de uma rotina em que cuidar de gente em situação extrema cobra um preço de quem fica todos os dias ao lado dos leitos. Se quase oito em cada dez médicos carregam algum nível de esgotamento que merece atenção, o cuidado dentro da UTI precisa alcançar também quem veste o jaleco.