Cada hora contava na operação que atravessou a madrugada de sábado para levar um remédio experimental até Lito Sousa. A substância saiu de Nova York, nos Estados Unidos, e desembarcou em Guarulhos, no Aeroporto Internacional de São Paulo. O despacho aduaneiro, a conferência alfandegária feita na entrada do país, levou poucos minutos, e o produto passou da aeronave direto para um helicóptero.
O destino era um hospital da capital paulista, o Israelita Albert Einstein, onde o influenciador de 59 anos, com diagnóstico da doença de Creutzfeldt-Jakob, vem sendo acompanhado. Receita Federal e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) trabalharam juntas para encurtar ao máximo o tempo entre o pouso e a entrega no hospital, porque o potencial terapêutico do produto pode se perder com o passar das horas.

Trata-se do ALN-6457, produto fabricado pela farmacêutica norte-americana Regeneron Pharmaceuticals. Em 4 de setembro, a Anvisa tinha autorizado a importação excepcional do composto para tratar Lito. O produto segue em fase pré-clínica, etapa anterior aos testes em pessoas, e nem sequer teve estudos formalmente iniciados em seres humanos contra a doença priônica.
Ele será, portanto, o primeiro paciente a receber a substância nessa situação. A liberação veio pelo chamado uso compassivo, mecanismo que permite a quem tem doença grave e não dispõe de outra alternativa terapêutica o acesso a produtos ainda experimentais.
O caminho até a autorização começou antes de o composto chegar ao país. A família tentou primeiro incluir Lito num estudo experimental, do tipo que testa a segurança e o efeito de um produto em voluntários, mas as vagas já estavam preenchidas. Restou buscar o uso compassivo.
Foram reunidos exames, documentos científicos e informações repassadas pela farmacêutica para sustentar o pedido. Com o aceite da empresa, o Einstein formalizou a solicitação de importação.
A pressa voltou a ser decisiva no momento do desembarque em Guarulhos. Receita Federal e Anvisa concluíram a liberação do carregamento em poucos minutos, ainda de madrugada. Ao deixar o avião, o produto foi colocado no helicóptero e levado diretamente ao hospital.
A mobilização acontece diante de uma doença com poucas possibilidades de tratamento. A Creutzfeldt-Jakob é uma condição neurológica rara causada por príons, proteínas defeituosas que se acumulam e provocam deterioração progressiva do cérebro.
Números do Ministério da Saúde mostram 547 casos confirmados no Brasil entre 2005 e 2021. A evolução costuma ser veloz: algo em torno de 90% dos pacientes morrem num intervalo de seis meses a um ano contado a partir dos primeiros sintomas.
Lito deixou o Albert Einstein em 1º de setembro e passou a ser tratado em casa, com acompanhamento de uma equipe multidisciplinar, formada por profissionais de várias áreas. Três dias mais tarde veio a autorização excepcional da agência para trazer o ALN-6457 ao Brasil.
Com a substância no hospital, abre-se uma etapa cercada de incertezas. Por estar em fase pré-clínica e sem estudo formal em seres humanos para essa doença, não existe garantia de resultado. Para Lito e para a família, o uso compassivo abriu a única porta disponível diante de uma condição rara e de avanço rápido.