Ansiedade, uma noite sem dormir ou uma briga no relacionamento passaram a ter um novo ouvinte. Chatbots de inteligência artificial, programas que conversam por texto, como o ChatGPT e o Gemini, já não servem só para escrever textos e organizar informações: passaram a ser usados também em questões emocionais, para desabafar, pedir conselhos e tentar entender sentimentos. Para parte dos usuários, a tecnologia começa a ocupar um lugar que antes era só da psicoterapia.
Um levantamento da Doctoralia, plataforma de agendamento de consultas, com quase 4 mil usuários mostra que 70% dos brasileiros já usaram ou usariam a inteligência artificial para enfrentar uma questão emocional ou psicológica. Os motivos mais citados são o funcionamento durante as 24 horas do dia, lembrado por 31,2%, e o custo, por 26,2%. A vergonha de falar com outra pessoa aparece para 14%.

A praticidade explica parte da atração. O chatbot atende a qualquer momento, responde na hora e não mostra impaciência nem constrangimento. A sensação de falar sem ser julgado também pode ajudar o usuário a expor problemas que teria dificuldade de contar a alguém.
Isso não quer dizer que a tecnologia seja inadequada para todo assunto de saúde mental. A IA pode ajudar a organizar os pensamentos, explicar conceitos de forma simples, preparar perguntas para uma consulta, sugerir técnicas de relaxamento e acompanhar alguns hábitos. Pode ainda servir de apoio para quem já está em tratamento.
Estudos mostram que chatbots criados especificamente para intervenções em saúde mental podem ajudar a diminuir sintomas de ansiedade e depressão e a melhorar o bem-estar. Uma revisão de estudos divulgada no Journal of Medical Internet Research, periódico científico dedicado à saúde digital, identificou benefícios de sistemas generativos em vários indicadores de saúde mental.
Outra pesquisa, publicada na JAMA Network Open, revista da Associação Médica Americana, acompanhou 995 estudantes universitários, divididos em três grupos: um usou inteligência artificial conversacional, outro fez terapia de grupo e o terceiro ficou na lista de espera. Quem usou IA teve queda maior da ansiedade do que os outros dois grupos e melhora dos sintomas de depressão em relação a quem esperava atendimento. Os pesquisadores também viram avanços no bem-estar e na satisfação com a vida.
Esses resultados, no entanto, não colocam a conversa com um chatbot no mesmo nível da psicoterapia. As evidências são mais sólidas para ferramentas desenvolvidas e testadas especificamente para esse fim, que podem complementar o acompanhamento profissional.
Nos Estados Unidos, a Associação Americana de Psicologia (APA) admite que as ferramentas podem derrubar barreiras como custo, estigma, vergonha e dificuldade de achar atendimento. A entidade alerta, porém, que a maior parte das inteligências artificiais de uso geral não foi criada para fazer tratamento psicológico e não tem validação clínica nem protocolos de segurança suficientes para essa função.
Entre os riscos estão respostas erradas, concordância exagerada com o usuário, falhas em momentos de crise, problemas de privacidade e dependência emocional. Um estudo publicado em 2025 na Science, uma das revistas científicas mais importantes do mundo, mostrou que os chatbots deram razão aos usuários 49% mais vezes do que outras pessoas dariam, inclusive diante de comportamentos problemáticos. Para quem tem ansiedade, perguntar repetidamente sobre situações negativas também pode alimentar ciclos de preocupação.
Os efeitos já chegam aos consultórios. Num segundo levantamento, feito pela Doctoralia com mais de 1.700 psiquiatras e psicólogos do Brasil, 25,7% dos psicólogos disseram já ter identificado ao menos um paciente com sinais de dependência emocional de chatbots, e 41,9% acham que o uso prévio da IA pode atrapalhar o vínculo entre paciente e terapeuta.
Entre os psiquiatras, 47,1% disseram receber pacientes que chegam à consulta com hipóteses de diagnóstico dadas pela inteligência artificial. Das pessoas que levaram uma orientação da IA a um profissional de saúde mental, 47% foram alertadas pelo profissional de que a orientação recebida estava errada ou trazia algum risco.
Na consulta, psiquiatras e psicólogos analisam, além do que o paciente conta, o comportamento, o histórico clínico e o contexto familiar e social, aspectos que a IA não consegue reproduzir por completo. Por isso, fazer do chatbot o único apoio emocional pode atrasar a busca pelo tratamento adequado.
A preocupação é maior com crianças e adolescentes. Uma pesquisa nos Estados Unidos mostrou que quase 20% dos jovens de 12 a 21 anos tinham procurado aconselhamento sobre saúde mental com IA até 2025. Nessa faixa etária, uma resposta imprecisa pode fortalecer crenças nocivas, gerar expectativas fora da realidade e não perceber sinais de perigo.
A Doctoralia também ouviu pais e responsáveis por jovens de 13 a 17 anos: 25,4% deles desconhecem se os filhos já recorreram à IA para questões emocionais, e 36,9% nunca conversaram com eles sobre os riscos. Especialistas recomendam que os pais tratem do assunto sem julgamento e expliquem aos jovens os limites dessas ferramentas.
A inteligência artificial pode ampliar o acesso à informação e oferecer apoio, mas deve ser usada como complemento e não toma o lugar do acompanhamento e da avaliação feitos por profissionais de saúde mental.