O 1º de maio tem se consolidado como um insistente chamado para o reconhecimento da cultura do trabalho sedimentada no respeito mútuo, na dignidade da pessoa humana, nas condições essenciais para o desenvolvimento socioeconômico e a efetivação da democracia.
Ao longo dos anos, os desequilíbrios relativos ao mundo do trabalho, apesar de atenuados, persistem: violência, assédio, vulnerabilidade de minorias, aumento do subemprego e da informalidade, o impacto das novas tecnologias. As assimetrias de toda ordem desafiam os valores fundamentais da justiça social, como a igualdade de tratamento e de oportunidades em prol do trabalho digno para todos.

Séculos e séculos de civilização têm sonhado com o dia em que o tripalium – instrumento de tortura na Roma antiga – se transmutará na poiesis dos gregos – criação, conhecimento, beleza do espírito voltado para uma atividade. Ou, mais próximo à realidade, sonhado pelo menos com um meio termo: trabalho assalariado com horas flexíveis para melhor se poder consumir e usufruir – atenuação considerável das relações antagônicas e históricas entre senhor e escravo, patrão e empregado, trabalho manual e intelectivo.
A verdade dos fatos mostra que convivemos com realidades tão díspares quanto o primitivismo da coação física do trabalho escravo até as sutilezas do assédio moral nas grandes corporações. As estratégias são inúmeras: desde as que garantem a exploração e preservam o domínio daqueles que têm o poder sobre os meios de produção e o capital, até os expedientes de submissão e subsistência da maioria desamparada e destituída de uma educação tecnológica – escravidão moderna e gratuita.
Convivemos com o desemprego tecnológico – a automação não apenas faz perder o emprego, mas destrói as oportunidades futuras de se retornar à mesma ocupação. Estudos estimam que 60% da mão de obra formal no Brasil desempenha atividades automatizáveis. A inteligência artificial tem avançado até nas atividades criativas. Tememos perder referenciais e habilidades de decisão autônoma, sermos reféns das decisões dos algoritmos. Apesar de contribuir com avanços tecnológicos e benefícios para as sociedades, a crescente automação tem demandado soluções urgentes de questões éticas e legais, pesquisa e controle de riscos, aspectos que envolvem governos, indústrias, instituições e organismos internacionais.
Quando o trabalho implica a sujeição de homens a outros homens ou mesmo a uma organização de trabalho determinada pela tecnologia, perde muito do seu sentido vital. A produção de algo que não é vista como socialmente relevante provoca alheamento, senso de fracasso e não reconhecimento. Não é à toa que a maioria sofre da melancolia dos domingos e não se “realiza” naquilo que faz… É a falta do sentido de missão ou do melhor no trabalho, da percepção de contribuir para o bem comum e de ser coautor da história humana. Compreende-se o motivo pelo qual muitas empresas e corporações, para além dos cursos técnicos e treinamentos, desenvolvem atividades para sublimar as competências, sensibilidades e ações dos trabalhadores de modo que tenham senso de pertencimento e prazer nas suas ocupações.
Trabalho não é apenas um meio de subsistência, mas também fonte de reconhecimento, solidariedade, coesão e estima social, como observou M. Sandel. Nas últimas décadas, a globalização e a tecnologia têm favorecido o mercado, as atividades financeiras, o conceito meritocrático de sucesso. E gerado ressentimento, desigualdade, obsolescência, invisibilidade, clientelismo das instituições democráticas, corrosão do senso de gratidão, um mercado de trabalho insensível e predatório. O megainvestidor Warren Buffett assim deu a entender quando disse que ele pagava menos imposto de renda que sua secretária.
Pessimistas realistas hão de concordar que, utopias e racionalizações à parte, muitos anos se passarão antes que a lógica da exploração do outro, a mentalidade escravocrata e a alienação do trabalho deem lugar a formas de trabalho dignas e prazerosas.
Erick Pereira é professor e advogado