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Opinião

Sem EJA, o Brasil condena milhões

EJA atende apenas 1,5% da demanda potencial e queda de matrículas revela redução da oferta para jovens e adultos
Por O Correio de Hoje
09/07/2026 | 16:45

O Brasil tem hoje um enorme contingente de adultos e jovens fora do ciclo completo da educação básica. São 63,9 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que abandonaram a escola antes de concluir essa etapa, o equivalente a 37,3% da população nessa faixa etária. Não se trata de um problema residual, nem de uma falha localizada do sistema educacional. É uma fratura social de grandes proporções, com efeitos diretos sobre renda, emprego, produtividade, cidadania e inclusão.

A Educação de Jovens e Adultos, a EJA, deveria ser o principal caminho para corrigir parte dessa dívida histórica. No entanto, a modalidade atende apenas 1,5% da demanda potencial existente no país. Em outras palavras, o Brasil tem milhões de pessoas que precisam concluir os estudos, mas oferece uma resposta pública muito inferior ao tamanho do problema.

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O dado mais grave é que a redução desse contingente não ocorre, principalmente, porque os adultos voltaram à escola. Segundo estudo divulgado pela Rede EJA e Inclusão Produtiva, desde 2012, 51% da queda da demanda por EJA se deu por mortalidade. Apenas 8% decorreu da conclusão dos estudos pela própria modalidade.

Na prática, para cada pessoa que terminou a educação básica pela EJA, mais de seis morreram sem concluir os estudos. É um indicador duro: o país está deixando envelhecer e desaparecer uma população que não conseguiu completar sua formação.

A oferta também encolheu. Entre 2008 e 2024, o número de municípios brasileiros sem turmas de EJA passou de 493 para 1.092. No conjunto das escolas de educação básica, apenas 24,6% oferecem turmas voltadas a jovens e adultos.

O Censo Escolar do Inep mostra que as matrículas da EJA caíram 20,4% entre 2020 e 2024, passando de pouco mais de 3 milhões para 2,39 milhões. Em vez de ampliar a porta de retorno à escola, o país reduziu essa porta.

As consequências aparecem no mercado de trabalho. A baixa escolaridade limita o acesso ao emprego formal, reduz a renda e aumenta a permanência em ocupações precárias.

Estudo do Itaú Educação e Trabalho e da Fundação Roberto Marinho indica que, entre jovens de 19 a 29 anos, concluir a EJA aumenta em 7 pontos percentuais a chance de conseguir emprego formal e eleva em 4,5% a renda mensal do trabalho.

Entre os jovens de 19 a 24 anos, o impacto é ainda maior: 9,6 pontos percentuais na formalização e 7,5% na renda.

Portanto, a EJA não é apenas uma política educacional. É também política de renda, de trabalho e de mobilidade social.

Sem ela, o jovem que deixou a escola para trabalhar tende a permanecer preso justamente ao trabalho mais instável, pior remunerado e menos protegido. O ciclo é perverso: a necessidade econômica empurra o estudante para fora da escola; a falta de escolaridade o mantém na baixa renda; a baixa renda dificulta seu retorno ao estudo.

Os dados do IBGE ajudam a dimensionar o problema entre os mais jovens. Em 2024, 8,7 milhões de brasileiros de 14 a 29 anos não haviam concluído o ensino médio, seja por abandono, seja por nunca terem frequentado escola.

Desse grupo, 59,1% eram homens e 72,5% eram pretos ou pardos. O principal motivo declarado para deixar a escola foi a necessidade de trabalhar, apontada por 42% dos jovens.

Entre os homens, esse percentual chegou a 53,6%. Entre as mulheres, além do trabalho, pesam gravidez, afazeres domésticos e cuidados com outras pessoas.

Há ainda o problema do analfabetismo funcional. O Anuário Brasileiro da Educação Básica aponta que 29% dos brasileiros de 15 a 64 anos são analfabetos funcionais.

Isso significa dificuldade para compreender e usar informações básicas de leitura, escrita e cálculo no cotidiano. A exclusão, nesse caso, não se mede apenas pelo diploma ausente, mas pela limitação concreta de participação na vida produtiva, digital e cidadã.

O impacto econômico é expressivo. A baixa escolaridade provoca perda anual estimada em R$ 66 bilhões em renda. Se metade das pessoas que não concluíram a educação básica terminasse os estudos, o ganho potencial para a economia equivaleria a 0,6% do Produto Interno Bruto.

Sem Educação de Jovens e Adultos, o Brasil transforma evasão escolar em destino social. Condena milhões à baixa renda, à informalidade e à exclusão permanente.

A resposta precisa passar por expansão de vagas, busca ativa, horários compatíveis com o trabalho, integração com formação profissional e financiamento adequado. A EJA não pode ser tratada como resto do sistema educacional. Para milhões de brasileiros, ela é a última chance de reabrir o futuro.