Uma capital não pode naturalizar crianças com bicho-de-pé como se isso fosse episódio menor, curiosidade sanitária ou problema restrito a uma comunidade invisível. O surto registrado em uma ocupação no Parque dos Coqueiros, na Zona Norte de Natal, é um retrato da cidade que ainda convive com moradia precária, ausência de infraestrutura, falha da atenção básica, coleta irregular de lixo e, sobretudo, déficit de saneamento.
A comunidade reúne 71 famílias e existe há cerca de dez anos. Moradores relatam casos recorrentes de tungíase, nome técnico da doença conhecida como bicho-de-pé. Segundo relatos da própria comunidade, oito em cada dez moradores já teriam sido infectados em algum momento. Reportagens locais também registraram cerca de 100 crianças e adolescentes diagnosticados com a doença, alguns com dezenas de lesões, dor, coceira e dificuldade para caminhar.

A tungíase é causada pela pulga Tunga penetrans. A fêmea fecundada penetra na pele, geralmente nos pés, dedos, calcanhares e áreas próximas às unhas. Em quadros leves, causa incômodo, inflamação e coceira. Em infestações repetidas ou numerosas, pode provocar infecções bacterianas, deformidades, dificuldade de locomoção e complicações graves.
É uma doença associada à pobreza, ao solo exposto, à presença de animais sem controle sanitário, à precariedade habitacional e à falta de saneamento.
Por isso, não se trata apenas de retirar parasitas da pele. O tratamento individual é necessário, mas insuficiente. Se o ambiente permanece o mesmo, a doença volta. Se a casa não tem piso adequado, se o lixo se acumula, se há esgoto a céu aberto, se a comunidade não recebe acompanhamento regular da atenção básica e se animais circulam sem controle, o ciclo de reinfestação continua.
A lesão aparece no pé, mas a origem está no abandono urbano.
Natal precisa olhar para esse caso dentro de um quadro maior. Dados do painel Municípios e Saneamento, com base no SINISA 2024, indicam que apenas 45,9% da população da capital tem acesso à coleta de esgoto. Isso significa que mais da metade dos natalenses ainda vive sem esse serviço básico.
Em números absolutos, são cerca de 425 mil pessoas sem esgoto coletado. Pelo Censo 2022, mais de 178 mil moradores da cidade utilizavam fossa rudimentar ou buraco como forma de esgotamento, e ainda havia pessoas vivendo sem banheiro ou sanitário.
A desigualdade territorial agrava o problema. A Zona Norte, onde está a comunidade atingida, historicamente ficou atrás no acesso ao esgotamento sanitário.
O próprio poder público já reconheceu, em anúncios sobre obras de saneamento, que enquanto Natal tinha perto de metade da população atendida por rede de esgoto, a Zona Norte chegou a ter cobertura muito inferior. É nesse tipo de território que doenças negligenciadas encontram espaço para se repetir.
O surto de bicho-de-pé, portanto, não pode ser visto como exceção. Ele é sinal de uma cidade partida. De um lado, uma capital que fala em turismo, obras, crescimento e modernização. De outro, crianças convivendo com uma doença evitável, ligada a condições sanitárias que deveriam ter sido superadas há muito tempo.
A atuação de voluntários, profissionais de saúde, podólogos, grupos religiosos e organizações sociais merece reconhecimento. Em muitos casos, são essas pessoas que chegam primeiro, aliviam a dor e oferecem atendimento emergencial.
Mas solidariedade não substitui política pública. A resposta precisa vir da Prefeitura, com atenção básica, vigilância em saúde, controle de zoonoses, limpeza urbana, assistência social e planejamento habitacional. Também exige articulação com o Estado, quando houver risco coletivo e necessidade de apoio técnico.
O poder público deve informar quantas pessoas foram atendidas, quantas crianças foram diagnosticadas, qual unidade de saúde ficará responsável pelo acompanhamento, que medidas ambientais serão adotadas, como será feito o controle de animais e qual plano será executado para impedir novos casos.
Sem essas respostas, o atendimento será apenas episódico.
Bicho-de-pé em crianças de Natal é vergonha urbana. Não pelo nome popular da doença, mas pelo que ela revela. O esgoto que falta, o lixo que sobra, o chão sem cuidado e a ausência do Estado acabam aparecendo na pele dos mais pobres.