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Opinião

Brasil cai e expõe crise de anos

Queda na Copa de 2026 expõe problemas acumulados ao longo de anos de instabilidade, falta de planejamento e perda de protagonismo técnico da seleção brasileira.
Por O Correio de Hoje
07/07/2026 | 17:19

A derrota para a Noruega será explicada, com alguma razão, pelos erros individuais, pelas chances claras desperdiçadas, por decisões discutíveis de Carlo Ancelotti, pelo peso emocional do mata-mata e pela sucessão incomum de lesões que desfalcou a seleção brasileira. Tudo isso existiu. Mas seria cômodo demais reduzir a eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 2026 ao que aconteceu no jogo derradeiro.

O fracasso brasileiro foi construído ao longo de quase quatro anos. A seleção que por décadas chegou a Mundiais como referência técnica, temida e respeitada, desembarcou nesta edição sem o favoritismo de outras épocas. Não por acaso. Antes da bola rolar na Copa, já havia um acúmulo de atuações pobres, resultados instáveis e decisões mal costuradas pela Confederação Brasileira de Futebol.

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A troca sucessiva de comando foi parte central desse processo. Três treinadores passaram pela seleção até que o italiano Carlo Ancelotti aceitasse assumir a missão, em 2025. Quando enfim chegou, encontrou uma equipe ainda em busca de identidade, pressionada pela transição de geração e pela queda de rendimento de Neymar, o principal nome brasileiro desde a década passada.

O Brasil começou o Mundial sem sistemas de jogo suficientemente testados e sem escalações consolidadas. As baixas entre titulares agravaram uma estrutura que já era frágil. Ao longo da competição, improvisos se repetiram até a eliminação. A equipe sobreviveu mais pela qualidade individual de alguns jogadores do que por um projeto reconhecível de seleção.

Não se trata de aderir ao catastrofismo que costuma aparecer depois de derrotas em Copa do Mundo. O Brasil continua tendo talento, camisa, torcida, tradição e peso global. Mas ignorar deficiências antigas seria repetir o erro que levou a seleção a mais uma queda. Já são seis eliminações consecutivas em Copas diante de adversários europeus. Desta vez, o algoz sequer era uma potência histórica do futebol mundial.

A crise também passa pelo banco de reservas. A escassez de treinadores brasileiros em alto nível, inclusive dentro do próprio país, não pode ser tratada como detalhe. Os dois clubes mais vitoriosos do futebol nacional nos últimos anos, Flamengo e Palmeiras, são comandados por portugueses. É um sintoma incômodo de perda de protagonismo técnico.

Manter bom desempenho em Mundiais continuará sendo essencial para que a seleção brasileira preserve sua força como uma das marcas mais valiosas do esporte. A Copa já não é mais a única vitrine onde se veem os grandes jogadores do planeta frente a frente. Esse papel passou a ser cumprido, semana após semana, pelos clubes bilionários da Europa. Ainda assim, o torneio conserva um fascínio que nenhum outro evento consegue reproduzir.

A edição de 2026 reforçou essa força. Mesmo ampliada para 48 seleções e com uma etapa adicional de mata-mata, a competição entregou surpresas, personagens, tensão, contrastes e emoção suficientes para responder às dúvidas sobre o excesso de jogos e a possível queda de qualidade técnica nas fases iniciais.

É evidente que o novo formato atende, antes de tudo, a interesses políticos e comerciais da Fifa. O futebol global vive também dessa engrenagem, queira-se ou não. O que não se pode normalizar é o vexame da suspensão de um jogador americano revista após lobby de Donald Trump, episódio incompatível com a seriedade que se espera de uma competição desse porte.

Para os brasileiros, o restante da Copa terá menos encanto. A seleção ficou pelo caminho antes do que poderia e deveria. Um país com a matéria-prima humana, a experiência, o prestígio e a paixão popular do Brasil tem obrigação de fazer mais do que apresentações irregulares e eliminações recorrentes. A reconstrução precisa começar agora. Com serenidade, sim. Mas sem complacência.