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Editorial

Sem desconto, sem trégua: Operação avança no RN e amplia cerco a esquema de descontos ilegais no INSS

Confira o editorial do Agora RN desta sexta-feira 19
Redação
19/12/2025 | 05:42

A Operação Sem Desconto segue em curso no País. Nesta quinta-feira, uma nova fase da investigação veio à tona, com mandados judiciais cumpridos no Rio Grande do Norte e em outros cinco estados, além do Distrito Federal. É importante que a Polícia Federal não dê trégua enquanto não elucidar por completo um dos esquemas criminosos mais abjetos já vistos na República. Aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social tiveram partes dos seus benefícios surrupiados por bandidos que enriqueceram ao longo dos últimos anos. Trata-se de uma face particularmente cruel da corrupção, que se aproveita da vulnerabilidade de quem depende de benefícios para sobreviver.

O trabalho conduzido pela Polícia Federal, com apoio decisivo da Controladoria-Geral da União, merece reconhecimento. As apurações revelaram um esquema nacional de descontos ilegais, estruturado, persistente e altamente lucrativo, que operou por anos sem consentimento formal dos beneficiários e sem qualquer contrapartida real. Desde então, o que se vê é uma investigação profunda, sem concessões, que avança sobre estruturas empresariais, entidades associativas de fachada e contas bancárias espalhadas pelo País.

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Sem desconto, sem trégua: Operação avança no RN e amplia cerco a esquema de descontos ilegais no INSS - Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

E a PF não tem dado “desconto”. Ao contrário: mesmo diante da pressão natural que acompanha investigações que alcançam figuras graúdas de Brasília, o inquérito seguiu adiante. Já são nove fases da operação e, desde o início, ao menos 18 pessoas foram presas, entre políticos, dirigentes públicos e empresários. A cada nova etapa, surgem elementos que reforçam a dimensão do esquema e o grau de sofisticação empregado para drenar recursos de quem menos poderia perder.

A fase mais recente elevou ainda mais o patamar da apuração. A investigação revelou possível ligação do filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com personagens centrais do esquema, levou à prisão domiciliar e ao afastamento do secretário-executivo de um ministério e cumpriu mandados de busca contra um senador da República. Não são fatos menores, nem episódicos. São sinais claros de que a investigação alcança, indistintamente, diferentes espectros do poder político.

Antes disso, a operação já havia mirado personagens do governo anterior, como um ex-ministro do Trabalho e Previdência, além de parlamentares e dirigentes do próprio INSS. Entre os presos, esteve o então presidente do órgão, Alessandro Stefanutto, que ocupava o cargo quando a operação foi deflagrada. Esse histórico é fundamental para afastar leituras simplistas ou seletivas: a investigação não tem partido, governo ou ideologia. Tem fatos.

É precisamente esse aspecto que precisa ser preservado. Em um país marcado por ciclos de impunidade, a Operação Sem Desconto aponta para um caminho institucionalmente saudável: investigar, responsabilizar e punir, doa a quem doer. A corrupção revelada nesse caso não é abstrata. Ela se materializa em valores descontados mês a mês de benefícios previdenciários, corroendo a renda de idosos, pensionistas e pessoas que, muitas vezes, não têm sequer condições de compreender a origem dos débitos.

Não pode haver recuo até que todos os responsáveis sejam identificados e punidos, sejam empresários, dirigentes de entidades, servidores públicos ou agentes políticos. A credibilidade das instituições passa, necessariamente, pela capacidade de enfrentar esquemas dessa natureza com rigor, técnica e independência.

A Operação Sem Desconto cumpre, até aqui, esse papel. Cabe ao Estado garantir que ela vá até o fim — e à sociedade, acompanhar e cobrar. Afinal, quando a corrupção alcança aposentados e pensionistas, o que está em jogo não é apenas dinheiro público, mas um mínimo de dignidade que não pode ser negociado.