BUSCAR
BUSCAR
Informe do Correio

PF fecha o cerco sobre Valdemar e emendas

Confira os destaques da coluna Informe do Correio, publicada em O CORREIO DE HOJE nesta quarta-feira 15
Por O Correio de Hoje
15/07/2026 | 17:36

A Polícia Federal colocou Valdemar Costa Neto no centro da investigação sobre 21 emendas parlamentares, apresentadas entre junho de 2024 e março de 2026, que somam R$ 119 milhões. Segundo a PF, o presidente do PL, embora não seja deputado nem senador, direcionava recursos da Câmara conforme interesses próprios, “em sintomas inequívocos do cometimento dos crimes de peculato” (desvio de dinheiro público). Diante da suspeita de que ele possa ter sido o beneficiário final dos valores, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou o bloqueio de quantia equivalente em bens do ex-deputado.

Valdemar não é um personagem estranho aos grandes escândalos da política brasileira. Foi condenado no mensalão, investigado na Lava Jato e indiciado na tentativa de golpe de Jair Bolsonaro (PL). Seu aparecimento no caso das emendas, portanto, está longe de causar surpresa.

Informe do Correio

O dirigente do PL reagiu dizendo-se surpreso com a decisão. Seus advogados afirmaram que Dino “parte de premissas frágeis, inferências subjetivas e de uma indevida criminalização da atividade político-partidária”.

É preciso reconhecer que a investigação ainda não revelou provas de que o dinheiro público tenha terminado diretamente nos bolsos de Valdemar. Também é possível que, como presidente partidário, ele estivesse participando de conversas sobre a destinação de recursos indicados por parlamentares.

Essa explicação, contudo, não resolve o conteúdo das mensagens obtidas pela PF na Operação Transparência, deflagrada em dezembro passado contra uma assessora ligada a Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da Câmara dos Deputados. Nos diálogos, servidores tratam as emendas como se pertencessem a Valdemar. Relatam que ele não aceitaria alterações nos destinos das verbas e indicam que poderia transferir dinheiro de uma rubrica para outra conforme sua conveniência.

Os números tornam o quadro ainda mais difícil de justificar. Em 2024, sem exercer mandato, Valdemar indicou R$ 111,8 milhões em emendas. Com esse volume, superou 512 deputados. Apenas Arthur Lira, então presidente da Câmara, teve influência sobre soma maior.

A situação expõe uma contradição constrangedora. O Legislativo reage prontamente quando considera suas prerrogativas ameaçadas pelos outros Poderes, mas demonstra pouco empenho em impedir que milhões de reais sejam manejados por alguém sem representação parlamentar.

Tal passividade talvez tenha explicação no interesse compartilhado. Deputados de diferentes grupos, assim como presidentes partidários, aproveitam-se de um sistema de emendas marcado por pouca transparência e fiscalização insuficiente. A Câmara não parece disposta a conter um modelo que distribui poder político e recursos públicos entre seus próprios integrantes e dirigentes.

Quando os parlamentares deixam de proteger o dinheiro do contribuinte e aceitam que verbas sejam tratadas como patrimônio particular, a fiscalização precisa vir de fora. Se o Congresso não corrige a farra das emendas, cabe à Polícia Federal investigar e ao Supremo Tribunal Federal impor os controles necessários.