Donald Trump anunciou como vitória o acordo firmado com o Irã. O Estreito de Ormuz será reaberto, os navios voltarão a circular e os mercados, depois de meses sob ameaça de ruptura no comércio global de energia, enfim respiram. Após quase quatro meses de guerra, não é um resultado irrelevante. Mas tampouco corresponde ao tamanho das promessas feitas por Washington.
Desde o início do conflito, a Casa Branca vinculou a ofensiva militar a objetivos bem mais amplos do que a simples retomada do fluxo comercial no Golfo, que, convém lembrar, estava livre antes da guerra. Em diferentes momentos, o governo americano falou em neutralizar a ameaça nuclear iraniana, enfraquecer a Guarda Revolucionária, destruir milícias patrocinadas por Teerã e consolidar a estabilidade regional. A queda do regime dos aiatolás chegou a ser tratada como possibilidade.

Pelo que se conhece do acordo previsto para ser ratificado na próxima sexta-feira, Ormuz será desobstruído de forma gradual, o bloqueio naval americano será suspenso, o Irã retomará a exportação de petróleo e as partes abrirão uma rodada de 60 dias para tentar construir um entendimento mais amplo. É pouco para quem apresentou a guerra como instrumento de transformação estratégica no Oriente Médio.
O ponto central permanece em aberto. O programa nuclear iraniano foi empurrado para negociações futuras. O destino dos estoques de urânio enriquecido segue indefinido. Não há clareza sobre limites ao enriquecimento, nem sobre mecanismos permanentes de verificação. Também não se sabe qual será o formato do acordo buscado por Washington. As armas silenciam, mas justamente o tema usado para justificar a guerra volta agora à mesa como problema a resolver.
Isso não significa que a ofensiva americana tenha sido inútil. O Irã sofreu danos concretos. Sua infraestrutura militar foi atingida, parte de sua capacidade nuclear foi degradada e sua liderança percebeu que não está imune a ataques diretos. Mesmo críticos da guerra reconhecem que o regime, embora mais radicalizado, saiu mais vulnerável. Ocorre que vulnerabilidade não equivale necessariamente a contenção.
Os mísseis balísticos continuam de pé. A rede de milícias terroristas ligada a Teerã também. Países do Golfo podem comemorar a estabilidade imediata, mas dificilmente se sentirão mais seguros do que antes. Israel, principal aliado regional dos Estados Unidos, acompanha com desconfiança um acordo que parece deixar à margem exatamente os temas que mais o preocupam.
A ironia é evidente. O resultado mais concreto da negociação é a reabertura de Ormuz. Só que Ormuz já estava aberto antes da guerra. O que mudou foi a comprovação de que o Irã consegue produzir choques econômicos globais quando transforma o estreito em instrumento de pressão. Uma ameaça antes tratada como hipótese foi testada, funcionou em grau relevante e virou fato político.
Por isso, qualquer celebração além do cessar-fogo e da retomada da navegação é precipitada. Também seria cedo para decretar vitória ou derrota definitiva. Os próximos meses ainda podem produzir um acordo robusto sobre o programa nuclear, o que mudaria a avaliação do conflito, ainda que reste a dúvida se o mesmo resultado não poderia ter sido buscado pela diplomacia.
Por ora, se os objetivos anunciados forem usados como medida, o saldo provisório se aproxima menos de uma vitória americana do que de uma sobrevivência iraniana. O regime continua no poder, Teerã demonstrou capacidade de causar danos econômicos, a região está mais desconfiada de Washington e a capacidade nuclear iraniana não foi eliminada.
Talvez o acordo se transforme no primeiro passo de uma solução duradoura. Hoje, porém, parece mais uma trégua comprada a alto custo, ou uma saída de emergência, do que uma paz capaz de resolver os problemas que levaram à guerra.