O candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Allyson Bezerra (União) desafiou seus principais adversários a renunciarem às próprias candidaturas caso a Polícia Federal não encontre provas contra ele na investigação da Operação Mederi. A declaração foi dada durante o debate da Band RN, neste domingo 9, depois de Allyson ser questionado repetidamente por Álvaro Dias (PL), Cadu Xavier (PT) e Robério Paulino (Psol) sobre as suspeitas envolvendo contratos da saúde de Mossoró.
“Eu faço um desafio aqui a vocês. Se nada for encontrado no meu celular — como não será —, vocês se comprometem, na hora que a Justiça mostrar que nada há no meu celular, a vir aqui e renunciar às candidaturas de vocês?”, perguntou Allyson.

O candidato afirmou que o aparelho apreendido durante a operação está disponível para as autoridades e negou ter impedido o avanço das investigações. “Talvez vocês não estejam cientes do processo, mas o meu celular está aberto e à disposição da Justiça”, declarou. Nenhum dos três concorrentes respondeu diretamente ao desafio de deixar a disputa.
Deflagrada em janeiro de 2026 pela Polícia Federal, em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU), a Operação Mederi investiga um suposto esquema de desvio de recursos públicos e fraudes em licitações. Na ocasião, a Justiça autorizou buscas em diversos endereços, além de medidas cautelares e patrimoniais.
Allyson, então prefeito de Mossoró, esteve entre os alvos. Os agentes apreenderam na residência dele um celular, dois discos rígidos e um notebook. Parte do dinheiro recolhido durante a operação foi encontrada em uma caixa de isopor na casa de Oseas Monthalggan Fernandes Costa, um dos sócios da empresa Dismed, apontada como envolvida no suposto esquema.
Interceptações realizadas pela PF mostram empresários discutindo uma possível distribuição de propina entre agentes públicos. Em uma das conversas, sócios da Dismed afirmam que Allyson teria acesso a R$ 60 mil, equivalentes a 15% de um contrato de R$ 400 mil. A divisão dos recursos foi chamada pelos próprios interlocutores de “Matemática de Mossoró”. A investigação continua em andamento e não há condenação contra o candidato.
No debate, Robério Paulino foi um dos primeiros a levantar o assunto. O candidato do Psol citou reportagem do Jornal de Fato sobre o conteúdo das interceptações. “Eu não posso acusar. O candidato Allyson vai ter o direito de se defender. Eu não posso julgar. É a Justiça que vai resolver”, afirmou, antes de mencionar a suspeita de pagamento de 15%.
Allyson respondeu que não aparece em gravações e que nenhum dinheiro foi encontrado na casa dele. “Em seis meses de investigação, o que encontraram contra mim? Nada. Sabe por que não encontraram, candidato? Porque não tem. Daí a minha tranquilidade”, declarou. Em outro momento, acrescentou: “Nunca foi achado dinheiro na minha casa”.
Álvaro Dias também cobrou explicações sobre o celular apreendido e acusou Allyson de se recusar a permitir o acesso da Polícia Federal ao conteúdo do aparelho. “Você devia explicar à população por que a Operação Mederi invadiu sua casa, levou seu celular e você se recusou a dar acesso do celular para a Polícia Federal”, afirmou o candidato do PL.
Em novo confronto, Álvaro voltou ao tema e disse que passaria a chamar Allyson de “candidato dos segredos inconfessáveis”. O ex-prefeito de Natal também classificou a Operação Mederi como um dos maiores escândalos de corrupção já investigados no Estado. Allyson rebateu dizendo que os concorrentes haviam combinado previamente os ataques para reduzir seu tempo de apresentação de propostas.
Cadu Xavier relacionou a investigação aos recursos destinados à compra de medicamentos em Mossoró. Ao responder a uma cobrança de Allyson sobre os empréstimos consignados dos servidores estaduais, o petista perguntou: “Para onde foi o dinheiro do desvio dos medicamentos em Mossoró? Onde está esse dinheiro? Está em algum isopor?”.
Allyson sustentou que todos os gestores públicos podem ser investigados e declarou manter a mesma tranquilidade demonstrada desde o início da operação. “Eu estou há seis meses de cabeça erguida por todo o Rio Grande do Norte, com a mesma tranquilidade com que estou aqui agora. Todo gestor pode e deve, sim, ser investigado por qualquer ato que aconteça na gestão”, afirmou em direito de resposta concedido pela comissão jurídica do debate.
A Operação Mederi teve como base auditorias produzidas pela CGU. Os documentos apontaram indícios de materiais comprados e não entregues, fornecimento inadequado de insumos e sobrepreço. Além de Mossoró, as possíveis fraudes alcançariam contratos nos municípios de José da Penha, São Miguel, Serra do Mel, Paraú e Tibau. Mandados também foram cumpridos em Natal e Upanema.