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Opinião

IA desafia jornalismo e democracia

Avanço dos modelos de IA levanta preocupações sobre direitos autorais, sustentabilidade da produção de conteúdo e efeitos para a democracia
Por O Correio de Hoje
05/06/2026 | 15:09

A inteligência artificial avança em ritmo assombroso, sustentada por aportes que somam centenas de bilhões de dólares. As demonstrações de sua capacidade crescem em velocidade equivalente. Já não parece especulação distante a hipótese de sistemas alcançarem desempenho cognitivo e intelectual acima do humano. Um deles antecipou a estrutura de 200 milhões de proteínas, feito que levou seus desenvolvedores ao Nobel de Química. No mês passado, um modelo da OpenAI solucionou um problema matemático aberto desde 1946, quando foi formulado pelo húngaro Paul Erdös. Um ano antes, outro sistema, do Google, chegou ao patamar de medalhistas de ouro das Olimpíadas Internacionais de Matemática. Resultados dessa natureza alimentam a expectativa de que problemas até hoje insolúveis passem a ser enfrentados em sequência.

O entusiasmo, porém, convive com riscos graves. Em sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV tratou dos efeitos econômicos e sociais da IA sobre diferentes atividades. No 77º Congresso da Associação Mundial de Jornais e Editores de Notícias, Arthur G. Sulzberger, presidente do The New York Times, concentrou a preocupação em uma frente decisiva, o jornalismo. As companhias que comandam a corrida da inteligência artificial repetem, em escala mais agressiva, a prática dos primeiros gigantes da internet. Alimentam seus modelos com conteúdos protegidos por direitos autorais, sem autorização, apropriando-se de produção alheia em volume sem precedentes. Sites noticiosos são vasculhados, textos são copiados, informações são reprocessadas e, depois disso, as próprias empresas jornalísticas passam a disputar audiência e receita com quem se valeu de seu trabalho.

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O desfecho possível é dramático. Sem remuneração adequada para quem apura, publica e sustenta informação confiável, as fontes fidedignas tendem a rarear. “Temo que caminhemos a passos largos para um futuro com cada vez menos jornalistas para fazer o trabalho caro e difícil da reportagem — ir aos lugares, conversar com pessoas, cavar informações, cobrir assuntos e eventos importantes, fornecer contexto e análise, investigar os poderosos”, disse Sulzberger. “Um futuro em que o manancial necessário para uma sociedade saudável e uma democracia estável — a verdade, a compreensão e a responsabilidade social proporcionadas pelo jornalismo — continua a secar.”

A ameaça ultrapassa o setor de notícias. Os sistemas de IA avançam também sobre bibliotecas, acervos cinematográficos, catálogos musicais e pesquisas acadêmicas. O valor desses bens não é apenas cultural. Segundo estimativa apresentada por Sulzberger, as profissões “criativas” empregam mais de 50 milhões de pessoas no mundo e movimentam US$ 12 trilhões por ano.

Quem critica a pilhagem praticada pelos modelos de IA costuma ser tratado como inimigo da inovação ou nostálgico de um mundo superado. A acusação não se sustenta. Empresas jornalísticas sempre estiveram entre as primeiras a incorporar novas tecnologias, inclusive ferramentas de inteligência artificial. A questão, como observou Leão XIV, não é rejeitar a IA, mas definir qual modelo de IA serve melhor à sociedade.

Sulzberger lembrou que o avanço das redes sociais ajudou a fechar jornais. Nas comunidades atingidas por esse vazio informativo, a confiança e a tolerância caíram, enquanto cresceram o isolamento e o ódio. “O engajamento cívico diminui e a corrupção pública aumenta”, disse. Se o jornalismo continuar perdendo força, a inteligência artificial poderá desferir um golpe decisivo contra democracias que já se encontram fragilizadas. Esse futuro deveria inquietar até os admiradores mais entusiasmados das novas tecnologias.