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Opinião

Escândalo Master não afunda Flávio

Pesquisas indicam que escândalo teve impacto limitado até agora, enquanto polarização mantém senador competitivo na disputa presidencial e amplia debate sobre o peso da corrupção nas escolhas do eleitorado
Por O Correio de Hoje
01/06/2026 | 16:20

Em outro ambiente político, a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência dificilmente sobreviveria ao caso Banco Master. O desgaste seria devastador. Num tempo em que a corrupção ocupava o centro das preocupações do eleitorado, pareceria impensável que um presidenciável fosse apanhado pedindo dinheiro ao personagem central do maior assalto ao mercado financeiro já registrado no Brasil e, ainda assim, continuasse competitivo. As primeiras pesquisas que mediram os efeitos do escândalo sobre Flávio, no entanto, indicam outra realidade. Para uma parcela expressiva dos eleitores, a suspeita de corrupção perdeu peso diante do objetivo de retirar Luiz Inácio Lula da Silva e o PT do poder. Nesse universo, Flávio permanece como o nome visto por muitos como capaz de cumprir essa tarefa.

O quadro é, evidentemente, desolador. Quando parte do eleitorado passa a admitir a corrupção de seu candidato como preço aceitável para derrotar um presidente e um partido que rejeita com intensidade, o debate público revela seu nível de degradação. A trajetória de Flávio, suas propostas e suas fragilidades deixam de importar. O único atributo relevante passa a ser sua utilidade eleitoral contra o lulopetismo. É difícil imaginar que uma lógica assim produza um país melhor.

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Há, contudo, um pragmatismo recorrente no comportamento do eleitor brasileiro. Lula, por exemplo, conseguiu se reeleger em 2006 apesar do escândalo do mensalão. À época, muitos eleitores preferiram relativizar denúncias graves contra o PT porque desejavam renovar o mandato de um presidente já fortemente associado ao Bolsa Família e à valorização do salário mínimo. O mensalão não impediu que Lula quase encerrasse a disputa no primeiro turno, quando alcançou perto de 49% dos votos, nem que derrotasse com folga o então tucano Geraldo Alckmin no segundo turno, com 61%.

Esse precedente ajuda a entender que a corrupção, isoladamente, raramente basta para definir se um candidato atingido por escândalo será abandonado pelo eleitorado. Há, sem dúvida, militantes mais radicais dispostos a votar em Flávio sob qualquer circunstância, mesmo que ele fosse flagrado empurrando uma senhora idosa num bueiro, movidos pelo ódio absoluto a Lula e pela sensação de que Jair Bolsonaro, pai do senador, os livrou de constrangimentos civilizatórios e morais. Mas não se pode concluir que todo eleitor antipetista hoje inclinado a Flávio esteja fechado com ele até o fim. A campanha ainda pode alterar percepções. Por isso, embora as pesquisas mostrem que o caso Master produziu até aqui pouco dano imediato, elas não autorizam afirmar que o filho de Jair Bolsonaro preservou intactas suas chances de derrotar Lula.

A eleição entra, assim, em uma zona curiosa. No retrato atual, Lula ampliou de maneira considerável suas possibilidades de reeleição. Isso se deve não apenas às traquinagens de Flávio, mas também à decisão do presidente de apostar em uma sequência recorde de medidas demagógicas para seduzir o eleitorado. Em paralelo, a rejeição ao nome de Flávio, que já era alta antes do escândalo do Master, abre espaço para uma leitura como a feita por Romeu Zema. Votar no senador no primeiro turno poderia significar entregar a vitória a Lula no segundo. Seria mais um desserviço da família Bolsonaro ao País.

Para Jair Bolsonaro, porém, essa preocupação pesa pouco. O ex-presidente não trabalha para que qualquer candidato de direita vença. O que lhe interessa é que o vencedor, se houver, seja Flávio. Uma vitória de outro nome do campo conservador empurraria o bolsonarismo de volta ao terreno baldio da baixa política, de onde jamais deveria ter saído. Por isso, a tendência é que Flávio mantenha sua candidatura até o fim, mesmo sob desgaste crescente.

Esse quadro só mudará se os demais concorrentes da direita demonstrarem força real nos próximos meses. O problema é que as alternativas competitivas são raras, quase inexistentes. Assim como Lula se reelegeu com relativa tranquilidade em 2006 porque a oposição não conseguiu se viabilizar mesmo diante do mensalão, Flávio Bolsonaro segue como favorito para enfrentar o petista no segundo turno apesar do escândalo do Master porque seus adversários no mesmo campo são frágeis.

Sem o sobrenome Bolsonaro, Flávio seria apenas um político medíocre, cercado por suspeitas de corrupção e de relações com milicianos. Com o sobrenome, torna-se uma força política incontornável.