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Opinião

Trump encurrala Lula com novas tarifas

Proposta do governo americano amplia tensão comercial com o Brasil e reacende debate sobre condução diplomática diante de possíveis sanções
Por O Correio de Hoje
03/06/2026 | 15:42

A nova ameaça comercial dos Estados Unidos contra o Brasil aprofundou a crise aberta na relação entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump. Poucos dias depois de o Departamento de Estado anunciar que passaria a classificar as duas maiores facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, o Itamaraty recebeu outro golpe. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluiu a investigação iniciada em 2025 com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 e recomendou tarifas de 25% sobre produtos brasileiros importados.

A proposta é mais grave que o tarifaço do ano passado, posteriormente suspenso pela Suprema Corte americana, porque aponta para sanções comerciais dirigidas especificamente ao Brasil. Também deixa exposto o alcance limitado da estratégia de Lula de buscar aproximação direta com Trump.

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Parte da argumentação americana é frágil. “Alguns dos atos, políticas e práticas do Brasil em relação ao comércio digital e serviços eletrônicos de pagamento, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal não são razoáveis e oneram ou restringem o comércio dos Estados Unidos”, afirma o comunicado do USTR.

Entre os argumentos apresentados, há pelo menos dois de sustentação precária. Um deles é a alegação de que o Brasil falhou no combate à devastação florestal, embora o desmatamento tenha caído mais da metade desde a posse de Lula. Outro é a acusação de que a disseminação nacional do Pix restringe a competição em sistemas de pagamento, tese descabida, pois o Pix não ameaça a rentabilidade das bandeiras de cartão de crédito, baseada sobretudo nos juros cobrados.

Há pontos em que a crítica americana encontra terreno mais consistente. O Brasil de fato enfrenta dificuldades no combate à corrupção e à pirataria. Também são conhecidos os problemas provocados por decisões arbitrárias do Judiciário na suspensão de conteúdos e contas em redes sociais, assim como a adoção de tarifas preferenciais e restrições ligadas ao etanol. Nada disso, porém, é exclusivo do Brasil ou tão excepcional em comparação com práticas de outros países a ponto de justificar sanções dessa intensidade.

A queixa, por si só, não resolve o problema. Há uma consulta pública em andamento antes da eventual entrada em vigor das tarifas, e os negociadores do Itamaraty precisam insistir na tentativa de reverter a recomendação.

“Ao longo do último ano, o presidente Trump e eu mantivemos diversas reuniões construtivas com o presidente Lula e seu gabinete”, disse Jamieson Greer, chefe do USTR. “Entretanto, continuamos a ter diferenças substanciais na solução das questões identificadas nesta investigação.”

Greer afirmou ainda que permanece aberto a “manter o engajamento” com as autoridades brasileiras até o prazo definido para a resposta tarifária dos Estados Unidos.

Lula acertou ao reagir ao tarifaço anterior e ao tentar abrir uma via de diálogo com Trump. A sucessão de acontecimentos da última semana, no entanto, mostrou que a negociação conduzida até agora não produziu os resultados esperados. O governo americano continua pouco sensível aos argumentos brasileiros.

Ontem, em Catalão, em Goiás, Lula adotou tom de confronto ao exibir um cartaz com a frase “O Pix é do Brasil”.

“Quero que Trump saiba: nós aqui não temos medo de cara feia”, afirmou. “Estou esperando um telefonema seu para me explicar o que aconteceu.”

Nos corredores do Itamaraty, repete-se há tempos que, em diplomacia, “não basta ter razão, é preciso trazer a rapadura para casa”. Pelas palavras de Greer, ainda existe margem para o Brasil tentar evitar as tarifas. Para isso, Lula e seus auxiliares terão de tratar o tema com mais cálculo diplomático e menos contaminação ideológica ou eleitoral.