A recente ameaça do governo dos Estados Unidos de classificar as facções criminosas PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas levantou uma legítima preocupação entre as autoridades brasileiras. Afinal, um rótulo desse tipo poderia abrir margem para que o presidente americano Donald Trump, que age como xerife do mundo, resolva invadir o território brasileiro. O roteiro, aliás, lembra o que aconteceu na relação entre EUA e Venezuela.
Mas não é só de fora que vem a ameaça de mais turbulência. Nesta semana, em uma entrevista à rádio Mix, a maior autoridade de segurança pública do Rio Grande do Norte, o secretário Coronel Araújo, detalhou que facções originárias do Sudeste disputam território no Estado, buscando expandir sua atuação. E a briga não se restringe aos grandes conglomerados urbanos. Ela alcança todos os recantos do RN.

O diagnóstico não surpreende quem acompanha a realidade da segurança pública no País. Há anos se sabe da presença de estruturas vinculadas ao PCC e ao Comando Vermelho em diferentes regiões do Brasil, além de grupos locais que surgem ou se reorganizam a partir dessas redes. No Rio Grande do Norte, essa presença já foi identificada tanto em Natal quanto em municípios do interior, muitas vezes associada à disputa por pontos de tráfico e à tentativa de controle territorial.
Com a expansão das organizações criminosas, comunidades inteiras passam a conviver com a influência das facções, que estabelecem regras próprias, interferem na vida cotidiana e, em alguns casos, impõem medo como ferramenta de domínio. O tráfico de drogas continua sendo o principal motor financeiro dessas estruturas, mas sua atuação frequentemente se expande para outras atividades ilícitas e para a tentativa de consolidar presença permanente em determinados bairros.
O secretário citou ações recentes em áreas como Felipe Camarão e Mãe Luíza, em Natal, além de operações em municípios da região metropolitana, como São José de Mipibu. Ele mencionou também a implantação da Operação Território Seguro, desenvolvida em parceria com o Governo Federal. A partir dela, são executadas ações de repressão ao crime, mas não só: estão previstas ações de cidadania e a intensificação da presença do Estado para que comunidades consigam se livrar do domínio do crime.
Esse tipo de iniciativa produz resultados importantes. A presença policial mais constante pode reduzir episódios de violência e enfraquecer temporariamente a atuação de grupos criminosos em determinadas áreas. O uso de videomonitoramento, recentemente ampliado com a integração de sistemas entre prefeitura, Ministério Público e governo estadual, também representa um avanço operacional relevante. A capacidade de identificar ocorrências e mobilizar rapidamente equipes de segurança melhora a resposta do Estado diante de situações de risco.
Mesmo assim, o problema está longe de ser resolvido. O crescimento dessas organizações ao longo das últimas décadas está ligado a fatores mais profundos da estrutura social brasileira. O País convive com desigualdades persistentes, ausência de oportunidades em muitos territórios urbanos e uma rede de serviços públicos frequentemente incapaz de alcançar as populações mais vulneráveis.
Nesse ambiente, o crime organizado encontra espaço para recrutar jovens, estabelecer rotas de comércio ilegal e consolidar influência social em regiões onde o Estado aparece de forma fragmentada. O controle territorial exercido por facções não surge apenas da violência, mas também da ausência prolongada de políticas públicas consistentes.
A reação precisa, portanto, ir além da dimensão policial. Segurança pública é parte da solução, mas não pode ser a única resposta. Educação de qualidade, acesso efetivo a serviços de saúde, políticas de geração de emprego e renda, programas de qualificação profissional e iniciativas culturais e esportivas voltadas para crianças e adolescentes são elementos essenciais para reduzir o terreno fértil onde o crime organizado se fortalece.
O enfrentamento das facções exige também coordenação entre União, estados e municípios, além de continuidade nas políticas públicas. Mudanças frequentes de estratégia e disputas políticas que interrompem programas estruturantes costumam produzir resultados limitados e temporários.
A declaração do secretário de Segurança apenas reafirma um quadro que já se consolidou no País. O crime organizado deixou de ser um fenômeno localizado e passou a operar em rede, com presença nacional e capacidade de expansão territorial. Reconhecer essa realidade é o primeiro passo para enfrentá-la com seriedade.
O Brasil precisa lidar com o problema antes que ele seja tratado, no exterior, como uma ameaça internacional. A soberania de um país também se mede pela capacidade de enfrentar seus próprios desafios. E esse é um dos mais urgentes.