O tarifaço de Donald Trump já tem preço para o Rio Grande do Norte: as exportações potiguares para os Estados Unidos despencaram 57% no acumulado de janeiro a julho, de US$ 73,4 milhões em 2025 para US$ 31,7 milhões neste ano, segundo consulta do Agora RN à base oficial Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, nesta sexta-feira 28. Em todo o ano passado, os americanos compraram US$ 91,3 milhões do Estado — ritmo que, mantida a tendência atual, não será alcançado nem pela metade em 2026.
A pauta atingida é diversa. Neste ano, os principais produtos potiguares embarcados para os EUA foram combustíveis e óleos minerais (US$ 15,2 milhões), pescados e crustáceos (US$ 5,9 milhões), açúcares (US$ 3,2 milhões), sal e gesso (US$ 2,4 milhões) e frutas (US$ 1,5 milhão) — setores que aparecem, quase item a item, na lista nacional de segmentos que usam o regime de drawback nas vendas aos americanos, de pedras trabalhadas a carnes e calçados.

É para esse universo que o governo federal abriu uma válvula de escape. A Medida Provisória nº 1.386, publicada na terça-feira 25, permite até 12 meses adicionais para que exportadores prejudicados pelas tarifas americanas cumpram os compromissos do drawback suspensão — o regime que desonera insumos usados na fabricação de produtos destinados ao exterior, sob a condição de exportar dentro do prazo. A regra alcança atos concessórios que vencem entre 22 de julho e 31 de dezembro de 2026, exige comprovação do impacto das tarifas e vale também para fabricantes-intermediários, como detalhou o O Correio de Hoje na edição desta quinta-feira 27. Sem a extensão, empresas que não conseguissem exportar a tempo teriam de recolher os tributos suspensos com encargos.
O mecanismo não é marginal: em 2025, as empresas beneficiadas pelo drawback suspensão exportaram US$ 72,8 bilhões, o equivalente a 20,9% de tudo o que o Brasil vendeu ao exterior, envolvendo 1.791 companhias. A MP integra o Plano Brasil Soberano 3, o pacote federal de resposta às tarifas, e dá aos exportadores tempo para renegociar com os compradores americanos ou redirecionar cargas a outros mercados.
Para o RN, o redirecionamento já é realidade em parte da pauta — a fruticultura, maior vitrine exportadora do Estado, tem na Europa seu destino principal e projeta safra recorde escoando pelo Porto de Natal. Mas o tombo de 57% nas vendas aos americanos mostra que, um ano depois do anúncio das sobretaxas, o mercado dos EUA — que chegou a valer quase US$ 100 milhões anuais para o Estado — segue sendo o principal buraco na balança potiguar, e é exatamente o tamanho desse buraco que a prorrogação do drawback tenta estancar.