Até o próprio anúncio da morte, Dolly Parton manteve o controle da narrativa que construiu por seis décadas. O vídeo em que a família comunicou a partida da cantora, na terça-feira 25, foi gravado por Bryan Seaver, sobrinho e chefe de segurança dela — e não por acaso: “Este anúncio em vídeo é algo que Dolly me pediu anos atrás, antes que eu absorvesse isso como uma realidade futura”, revelou ele no comunicado oficial da família, divulgado na íntegra. Filho de Cassie, irmã de Dolly, Seaver comanda a segurança da artista há mais de duas décadas — função que herdou do pai, Larry.
A cantora morreu “em paz” aos 80 anos, em casa, em Nashville, no Tennessee, segundo o release da assessoria True Public Relations que acompanhou o vídeo — detalhe que não constava dos primeiros registros. A causa da morte não foi divulgada pela família. Semanas antes, Dolly havia faltado a um evento na Dollywood, seu parque temático, citando questões de saúde; ela já vinha reduzindo compromissos desde a morte do marido, Carl Dean, em março de 2025, como registrou o O Correio de Hoje no obituário publicado na edição desta quinta-feira 27.

O texto da despedida tem a marca registrada da tia. “Ela nunca viu uma porta que não pudesse abrir, e as portas que ela abriu fizeram e mudaram a história”, disse Seaver, lembrando que Dolly abriu caminho “para gerações de cantores, compositores, músicos e sonhadores de todos os continentes”. O trecho mais pessoal soa como uma última piada ensaiada pela própria compositora: segundo o sobrinho, Dolly telefonou para dizer que queria “descansar numa bela cama de algodão macio, porque depois de uma vida vestindo pesados brilhantes, ela finalmente merece estar confortável”. E uma síntese que poderia assinar qualquer biografia: “Dolly era uma agricultora, como o pai dela. Ele cultivava a terra. Ela cultivava canções e felicidade.”
A morte repercutiu no mundo inteiro na terça-feira, com homenagens de artistas de todas as gerações. O legado que fica é de uma abrangência rara: cerca de 3 mil composições e 49 álbuns de estúdio, “Jolene” e “9 to 5” no cânone americano, “I Will Always Love You” transformada em fenômeno mundial na voz de Whitney Houston — música que Elvis Presley quis gravar e não gravou porque Dolly se recusou a ceder parte dos direitos, numa das decisões de negócio mais celebradas da indústria. Fora dos palcos, a Imagination Library distribuiu livros a centenas de milhares de crianças em cinco países, causa que ela abraçou porque o pai era analfabeto.
A influência atravessou gerações — de Miley Cyrus, sua afilhada, a Beyoncé, que levou Dolly para dentro de “Cowboy Carter” e regravou “Jolene” meio século depois do lançamento. Nos últimos meses, a cantora colaborava com o musical da Broadway sobre sua vida e estudava um projeto de avatar digital para seguir nos palcos. O plano, como quase tudo na carreira dela, era não sair de cena — e, a julgar pelo adeus que deixou pronto, nem saiu.