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Coluna Bruno Araújo

Estalar de dedos

Confira a coluna de Bruno Araújo desta sexta 19
Bruno Araújo
19/04/2024 | 07:38

Imagine despertar hoje e descobrir que, num estalo de dedos de um ser eterno, as redes sociais digitais simplesmente desapareceram da face da terra. Não há mais um feed incansável de notícias. As notificações de atualização na rede vizinha desapareceram do celular. Não há mais a necessidade ler, saber e opinar sobre absolutamente tudo. A dispersão provocada pela hiperestimulação evaporou e não atormenta mais as mentes humanas. As fakenews voltam a ser teoria da conspiração do tio estranho e que não tem mais a esquina onipresente de cada byte como ponto de encontro.

Sem qualquer perspectiva da chegada desse ser onipotente, resta a percepção que passou pela nossa cabeça em algum momento, tal qual o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, que em visita ao Senado Federal, expressou em voz alta a impressão de que antes da existência das redes sociais, esses nós digitais pelos quais fluem tanta coisa, “éramos felizes e não sabíamos”.

Ministro Alexandre de Moraes / Foto: Nelson Jr./SCO/STF
Ministro Alexandre de Moraes / Foto: Nelson Jr./SCO/STF

De fato, uma série de mazelas ganhou força com as mídias sociais, e parafraseando o escritor italiano Umberto Eco, deu “voz aos idiotas”. Por outro lado, é impossível ignorar que silenciados ganharam voz. Redes sociais formadas e potencializadas pelas mídias sociais digitais capazes de convergir direitos de associação, informação e, claro, de expressão. A “Primavera Árabe”, “Revolução dos Guarda-Chuva” e o movimento entre afegãs #DoNotTouchMyClothes (NãoToqueNasMinhasRoupas) são exemplos de grupos que puderam se encontrar, organizar, defender bandeiras e serem ouvidos por todo o mundo.

Movimentos sociais que enfrentaram o que consideravam tirania de um governo autoritário e que vale para versões cuja incompetência ou a contrariedade ao interesse público prevaleçam na gestão. Poderes formalmente instituídos, sejam democráticos ou não, sempre vão temer a força popular, seja das ruas, seja de movimentos digitais com domínio sobre o debate público. A influência do poder e da agenda política, partidária e pessoal só pode ser confrontada – algo desvelado pela própria história de reinos e repúblicas – pelo povo.

A encruzilhada democrática a qual nos deparamos é o paradoxo da tolerância em ação. A sociedade é capaz de comportar extremistas sob a égide da liberdade de expressão, ainda que coloque em risco as instituições e direitos balizadores que sustentam a democracia? A reflexão do filósofo Karl Popper está longe de propor uma resposta para a questão, mas é um ponto de partida fundamental para compreender a complexidade dos direitos envolvidos e o que está em jogo.

Na ficção, um estalar de dedos talvez possa ser a solução adequada para um tirano de moral duvidosa, mas no mundo real, é o produto da fricção entre os agentes envolvidos que vai definir os rumos. Mas a pergunta que fica é: quanto o tecido social democrático tolerará o esgarçamento em defesa do conceito que o forma?