Pouco mais de 8 horas da manhã no bairro da Cidade Alta, em Natal. A lona azul que cobre o leito forrado por um lençol velho embaixo do viaduto balança. A sombra que se aproxima mostra cinco dedos que se fecham rapidamente para abrir a barraca improvisada sob o Viaduto do Baldo. Parecia um pesadelo. Mas estavam todos acordados. Eram funcionários da Prefeitura do Natal que, ao lado da Guarda Municipal, abordavam pessoas em situação de rua com objetivo de retirá-las do local.
Ansiosos, perguntavam para onde seriam encaminhados. As opções eram um pernoite no Albergue público ou a ida para uma comunidade terapêutica destinada a pessoas com dependência química. Não era por dignidade ou resgate de direitos, mas pela higienização social de uma das principais vias da cidade. Varrer para debaixo do tapete e para longe da vista, a pobreza que grita nas esquinas, canteiros e marginais. Ou como definiu um líder do movimento de luta por moradia, “um despejo da rua para rua.”
O texto que dramatiza um episódio real não é fato isolado. Ainda hoje, ao circular pela cidade, é possível ver acampamentos de pessoas sem teto, sem perspectiva. O que leva a reflexão sobre a qual a função de um prefeito e da Prefeitura. Em caráter objetivo, é cuidar do interesse público dos cidadãos do município. Então, em um paralelo entre a cena narrada e a definição resumida, apenas comprovamos que a cidadania é um luxo.
O cidadão com teto, comida e carro verá a praça nova como área de lazer. Em contrapartida, o outro viverá a mesma praça como abrigo e vitrine daquilo que não pode ter. A política de trabalho e assistência social deve ter um olhar efetivo sobre o ser humano que vive na capital potiguar. O Censo da População em Situação de Rua no RN, divulgado em 2023 pela Secretaria de Estado do Trabalho, da Habitação e da Assistência Social (Sethas), aponta que 67,71% das pessoas que vivem na rua no estado estão concentradas em Natal, à época, 1491 pessoas.
Qual o plano da gestão municipal para essas pessoas marginalizadas em seus direitos, invisibilizadas pelo poder público e violentadas em sua condição de vulnerabilidade por viver na rua? E dos candidatos à Prefeitura? É apenas moradia o problema? Não. A moradia é a ponta do básico. É preciso assegurar esperança. A garantia de que haverá comida, renda e futuro. A certeza de não ser desperto por forças do estado ou por animais travestidos de gente em busca do prazer de violar com fogo um espírito quebrado.
Ao olhar para os menos favorecidos e avançar na redução das desigualdades, se oferece à sociedade a perspectiva de que todas as vidas importam. Tanto aquelas privilegiadas com paz e tranquilidade, quanto as que apenas observam e sonham com a possibilidade de tê-las.
Bruno Araújo é jornalista, escritor e especialista em Comunicação Pública
