Diante do microfone, muitos problemas parecem fáceis de resolver. O crédito chega, a estrada melhora, a saúde funciona, a segurança aumenta e a educação avança. Mas, quando chega a hora de empunhar a caneta, a realidade se impõe. Governar significa fazer escolhas, administrar recursos limitados, enfrentar uma máquina pública complexa e transformar promessas em resultados. É nessa passagem do discurso para a decisão que muitas expectativas ficam pelo caminho.
O produtor rural conhece bem essa distância. A produção tem seu próprio calendário e não espera o tempo da política. Crédito depois do plantio, estrada recuperada depois da safra ou apoio que chega quando o prejuízo já aconteceu podem até cumprir uma formalidade, mas perderam boa parte de sua finalidade. Para quem produz, não basta anunciar uma solução. Ela precisa funcionar no lugar certo e na hora em que é necessária.

O problema se torna ainda maior quando o Estado gasta muito e entrega menos do que a sociedade espera. Responsabilidade fiscal não é uma discussão distante da vida das pessoas. Quando os recursos públicos são mal utilizados, falta capacidade para investir justamente onde o cidadão mais precisa: saúde, segurança, educação, infraestrutura e serviços públicos de qualidade. Não existe orçamento infinito, e cada escolha equivocada hoje reduz a capacidade de fazer amanhã.
Isso não significa imaginar que governar seja simples. Ao contrário. Quem observa o poder público de fora muitas vezes acredita que basta vontade para resolver os problemas. Quando assume a responsabilidade de decidir, encontra leis, orçamento, burocracia, estruturas difíceis de mudar e diferentes interesses disputando prioridades e recursos. É justamente diante dessa complexidade que planejamento, capacidade de gestão e responsabilidade se tornam indispensáveis. Prometer faz parte da política. Escolher prioridades e entregar resultados é o que lhe dá credibilidade.
No campo, como nas cidades, a ineficiência tem custo. Uma estrada que não é recuperada encarece o transporte. A falta de segurança prejudica famílias e empresas. Serviços deficientes de saúde e educação comprometem qualidade de vida e oportunidades. E quando o gasto público cresce sem produzir melhores serviços, a conta acaba chegando à sociedade, inclusive a quem trabalha, produz e gera empregos.
Por isso, diminuir a distância entre discurso e realidade exige menos facilidade para prometer e mais responsabilidade para decidir. É preciso definir prioridades, gastar melhor, avaliar resultados e reconhecer que nenhuma política se sustenta por muito tempo sem equilíbrio nas contas públicas.
O microfone é importante para apresentar ideias e assumir compromissos. A caneta, porém, carrega o peso das escolhas e das consequências. No fim, a qualidade da política talvez possa ser medida pela distância entre os dois: quanto mais perto estiver aquilo que se promete daquilo que efetivamente se entrega, maior será a confiança da sociedade em quem governa.
José Vieira é presidente do Sistema Faern/Senar