No campo, uma dívida nem sempre nasce de má gestão ou falta de planejamento. Muitas vezes, ela começa com a chuva que não veio, com a praga que atingiu a lavoura, com o custo da ração que disparou ou com a queda inesperada dos preços de mercado. Produzir no agro sempre significou conviver com riscos — alguns previsíveis, muitos completamente fora do controle do produtor. E quando esses fatores se acumulam, o endividamento deixa de ser apenas um problema financeiro e passa a ameaçar a própria capacidade de continuar produzindo.
Foi justamente para enfrentar situações de inadimplência que surgiu o Desenrola Brasil. O programa partiu de uma lógica correta: quando famílias e pequenos empreendedores se endividam excessivamente, a economia perde dinamismo. Ao renegociar dívidas com descontos e condições mais viáveis, milhões de brasileiros puderam reorganizar sua vida financeira.

Mas o governo federal fez uma escolha difícil de compreender: decidiu enfrentar a inadimplência das cidades enquanto deixou o setor rural praticamente fora da solução.
O contraste é evidente. Para o meio urbano, houve sensibilidade, programa estruturado, mobilização institucional e discurso de reconstrução financeira. Para o campo — justamente o setor que convive com seca, perdas climáticas, oscilações severas de preços, aumento abrupto de custos e riscos permanentes — prevaleceu o silêncio.
E aqui está a contradição que precisa ser enfrentada: o governo reconheceu que famílias urbanas endividadas mereciam uma segunda chance, mas falhou em reconhecer que o produtor rural frequentemente se endivida não por irresponsabilidade, mas porque trabalha sob condições que nenhum outro setor econômico enfrenta na mesma intensidade.
Brasília insiste em tratar o produtor como se operasse sob as mesmas condições de previsibilidade econômica do meio urbano.
Na prática, o Desenrola ignorou as especificidades do produtor rural brasileiro. E isso não é apenas uma falha técnica — é uma escolha política equivocada. Porque renegociar dívidas no campo não significa apenas devolver capacidade de consumo. Significa devolver capacidade de produção, preservar empregos, evitar o abandono da atividade e proteger a segurança alimentar do país.
No Rio Grande do Norte, essa omissão pesa ainda mais. Nosso estado convive historicamente com secas prolongadas, irregularidade hídrica e custos logísticos elevados. Mesmo diante dessas adversidades, o produtor potiguar continua investindo, inovando e sustentando cadeias produtivas essenciais para a economia. Mas ninguém consegue permanecer produzindo sem acesso ao crédito ou carregando dívidas incompatíveis com sua capacidade de pagamento.
O setor rural não pede privilégio. Pede coerência. Se o governo entendeu que renegociar dívidas urbanas era necessário para reativar a economia, precisa admitir que o mesmo raciocínio vale — e talvez de forma ainda mais urgente — para quem produz alimentos e sustenta parte importante do PIB nacional.
Porque quando o produtor quebra, não perde apenas a propriedade. Perde o município, perde o comércio local, perde o emprego e perde o abastecimento. O Desenrola prometeu reconstruir oportunidades. Mas, para o setor rural, até agora, acabou funcionando mais como um programa de exclusão silenciosa do que de reconstrução econômica.