O caminho que leva o alimento até a mesa do consumidor começa muito antes do mercado — ele começa na estrada. No Rio Grande do Norte, a qualidade das rodovias muitas vezes define não apenas o resultado da safra, mas também o custo final dos produtos que chegam à população. Para quem produz, estrada não é apenas deslocamento. É custo, é risco, é tempo e, sobretudo, competitividade.
A Pesquisa CNT de Rodovias 2025 confirma, com números, aquilo que o produtor sente no volante todos os dias. O levantamento mostra que 45% do pavimento das rodovias potiguares está desgastado e outros 52% estão remendados ou trincados. Na prática, isso significa que praticamente toda a malha rodoviária do estado apresenta algum nível de deterioração relevante. Não é exagero. É diagnóstico.

O estudo também revela que 46% das áreas perigosas não possuem barreiras de proteção e que 55% das rodovias não têm acostamento — percentual que chega a 82% em pontes e viadutos. Para quem transporta leite, frutas, hortaliças, animais, insumos ou equipamentos, isso não é apenas desconforto. É insegurança, atraso e prejuízo. Cada buraco, cada remendo, cada trecho sem acostamento representa mais desgaste para o veículo, mais tempo no trajeto e mais risco para o motorista.
A CNT calcula ainda o chamado custo logístico adicional, que mede quanto o transporte fica mais caro por causa das más condições das estradas. O RN aparece com 37,1%, o segundo pior índice do Nordeste. Nas rodovias estaduais, esse custo chega a 53,6%. Em termos práticos, isso significa que uma parcela significativa do valor pago no transporte pode estar sendo perdida em função da infraestrutura deficiente. É dinheiro que poderia estar sendo investido em tecnologia, irrigação, genética, assistência técnica ou expansão da produção, mas que se perde no asfalto ruim.
O impacto disso vai muito além da porteira. O RN tem uma agropecuária diversificada e resiliente, que produz alimentos para o Estado, para o país e para o exterior. Mas nenhum desses produtos chega ao consumidor sem passar por uma estrada. Quando 91% das rodovias são de pista simples e 100% das áreas de montanha não têm faixa adicional, o transporte se torna mais lento e mais arriscado. Quando a sinalização é insuficiente, o risco de acidentes aumenta. E tudo isso acaba sendo incorporado ao preço final.
A CNT estima que o RN precisa de R$ 2,2 bilhões em investimentos, sendo R$ 1,8 bilhão em ações emergenciais. Não estamos falando de luxo, mas de condições mínimas para garantir competitividade, segurança e desenvolvimento. O produtor rural faz a sua parte. Planta, cria, colhe, investe e arrisca. Mas ele não pode — e não deve — fazer sozinho aquilo que é responsabilidade do poder público: garantir infraestrutura adequada. Investir em estradas é investir no futuro do Rio Grande do Norte.
*José Vieira é presidente do Sistema Faern/Senar