Hoje, não importa onde um conflito internacional comece. Seus efeitos atravessam mercados e chegam rapidamente ao campo. No Rio Grande do Norte, isso aparece no diesel mais caro, nos insumos que sobem e no frete que pesa mais na conta. Em um setor que já convive com riscos climáticos severos e oscilações naturais de mercado, a instabilidade global adiciona uma camada relevante de incerteza ao cotidiano do produtor rural.
O primeiro efeito aparece no mercado de insumos. Guerras e impasses geopolíticos desorganizam cadeias globais de oferta, especialmente de fertilizantes, combustíveis e defensivos agrícolas. Como o Brasil depende fortemente da importação desses produtos, qualquer ruptura ou encarecimento no exterior se traduz rapidamente em aumento de custos no campo. Para o produtor do nosso estado, que já enfrenta gargalos logísticos e elevado custo de transporte, essas variações pressionam a rentabilidade e estreitam margens que, muitas vezes, já operam no limite.

Outro impacto relevante ocorre no mercado de exportação. O agro brasileiro é profundamente integrado ao comércio global, e o Rio Grande do Norte participa desse movimento com a força da fruticultura, da carcinicultura e do sal. Em momentos de instabilidade, as barreiras logísticas se intensificam: rotas são desviadas, seguros internacionais encarecem e fretes marítimos se elevam. Para quem produz melão em Mossoró ou camarão no litoral, isso significa uma operação mais lenta, menos previsível e com maior exposição a riscos que fogem ao controle do produtor.
Há ainda o efeito sobre a confiança e a estabilidade econômica. Conflitos prolongados ampliam a volatilidade do câmbio, fator central para o setor. Embora a alta do dólar possa, em alguns momentos, favorecer as exportações, na prática ela eleva custos de produção e dificulta decisões de investimento. Produzir no semiárido já exige resiliência diante da irregularidade das chuvas e da dependência de reservatórios. Quando a isso se soma um ambiente internacional instável, o produtor passa a conviver com uma dupla incerteza: a do clima e a do mercado.
Independentemente de suas motivações, conflitos prolongados geram custos que se espalham pela economia global e recaem sobre toda a sociedade, especialmente sobre quem produz alimentos, fibras e energia. O agro potiguar segue resiliente, sustentado pela tecnologia e pelo trabalho de quem acredita na terra. Mas é importante reconhecer: em um mundo interligado, a estabilidade global não é apenas um ideal, é um insumo essencial para garantir produção, renda e alimento acessível à população.
José Vieira é presidente do Sistema Faern/Senar