Enfim, uma notícia extraordinária para o Rio Grande do Norte, para a sua economia e para o seu povo. O início das obras de duplicação da BR-304 representa, de fato, um divisor de águas na questão logística do Estado. Trata-se de uma obra aguardada há pelo menos quatro décadas e, por muito tempo, tratada mais como promessa recorrente do que como prioridade concreta de desenvolvimento.
A ordem de serviço assinada nesta semana para o trecho entre Assú e Mossoró, com 57,6 quilômetros de extensão e investimento de R$ 367 milhões, materializa aquilo que por anos foi apenas discurso. Trata-se do começo efetivo da requalificação de uma rodovia estratégica para o Rio Grande do Norte, responsável por integrar regiões produtivas, sustentar o escoamento agrícola e industrial e conectar o Estado aos principais corredores do Nordeste.

Essa obra já poderia ter começado antes. O Rio Grande do Norte já contou com ministros de Estado, parlamentares influentes no Congresso – incluindo presidente de Câmara e de Senado – e lideranças partidárias nacionais. Faltou, contudo, o essencial: unidade em torno do interesse coletivo. Ao longo dos anos, o Estado foi vítima de disputas menores, vaidades e fragmentações políticas que pulverizaram esforços e atrasaram decisões estruturantes. O preço desse comportamento é conhecido: perda de competitividade, estagnação econômica e dependência crescente.
Nesse contexto, é justo reconhecer o papel da atual gestão estadual e do Governo Federal na viabilização da duplicação da BR-304. A obra foi incluída como prioridade no Novo PAC, após articulação direta da governadora Fátima Bezerra (PT), que esteve reiteradas vezes em Brasília tratando do tema. O resultado concreto está aí: contrato publicado, empresa contratada, prazo definido e canteiros prestes a avançar. Este reconhecimento não significa uma adesão ideológica, e sim compromisso com os fatos.
O trecho iniciado entre Assú e Mossoró atende exatamente a uma das áreas mais sensíveis da logística potiguar. Ali circulam cerca de 6 mil veículos por dia, incluindo o transporte da fruticultura tropical exportadora — melão, manga, mamão e banana — que abastece mercados da Europa e dos Estados Unidos, além da indústria salineira, da qual o Estado responde por mais de 95% da produção nacional. A duplicação significa segurança viária, redução de custos logísticos e aumento de eficiência produtiva.
Mas o reconhecimento não dispensa a crítica necessária. É evidente que o Rio Grande do Norte poderia ter avançado muito mais em infraestrutura logística ao longo dos últimos anos. O Porto de Natal, para citar um exemplo, segue subutilizado, sem a modernização exigida para atrair grandes fluxos comerciais. Faltaram decisões estratégicas para transformar a localização geográfica privilegiada do Estado em vantagem econômica real. Pernambuco e Ceará entenderam isso cedo e construíram polos estruturantes como Suape e Pecém, hoje motores industriais e logísticos de suas economias.
O Rio Grande do Norte, apesar de ser o ponto do Brasil mais próximo da Europa, da África e da costa leste dos Estados Unidos — reconhecimento histórico que levou à instalação da base de uma base norte-americana aqui durante a Segunda Guerra Mundial — jamais conseguiu transformar esse dado geográfico em política de Estado. Hubs logísticos, zonas de processamento de exportação, projetos de integração aérea e portuária foram cogitados, anunciados e abandonados, vítimas da falta de planejamento, foco e unidade política.
Ainda assim, o início da duplicação da BR-304 não pode ser minimizado. A obra está dividida em sete lotes, com um trecho em execução e outro já em fase de licitação: o Lote 2B, entre Macaíba e Riachuelo, com previsão de investimento de R$ 227,6 milhões. Ao todo, estima-se a geração de mais de 5,4 mil empregos diretos, indiretos e induzidos durante a execução. É impacto econômico real, mensurável, que se espalha pelo interior e pela Região Metropolitana.
O desafio agora é outro — e talvez ainda maior. Começar a obra não garante sua conclusão. A experiência recente da duplicação da Reta Tabajara, na mesma BR-304, marcada por atrasos, paralisações e intervenções intermináveis, serve de alerta. O Rio Grande do Norte não pode repetir esse roteiro. A duplicação da BR-304 precisa ser acompanhada, fiscalizada e cobrada com rigor e unidade.
Mais do que comemorar, é hora de maturidade política. Governadora, futuros governantes, senadores, deputados, prefeitos e vereadores precisam falar a mesma língua e agir de forma coordenada. Esta obra não pertence a um governo ou a um partido; pertence ao Estado. Se houver vigilância, pressão institucional e compromisso contínuo, a BR-304 poderá, enfim, cumprir o papel que lhe cabe: ser eixo de desenvolvimento, integração e progresso para o Rio Grande do Norte.