Diante do cenário catastrófico que o País atravessa, com 33 milhões de pessoas passando fome e os combustíveis a preços galopantes, qualquer auxílio que venha a melhorar minimamente as condições de vida do povo brasileiro é bem-vindo. A pandemia e um governo desatento às questões sociais compuseram um quadro horroroso, que exigem agora esforço para reduzir os efeitos da extrema pobreza.
Neste sentido, age bem o governo – com aval do Congresso – ao elevar o Auxílio Brasil para R$ 600, dobrar o valor do vale-gás e criar um benefício para caminhoneiros. As medidas passaram a valer ontem, com a promulgação de uma PEC. A previsão é que o pagamento comece em agosto, segundo o governo.

Entretanto, é preciso deixar claro que a principal motivação do governo não é a questão social, e sim a eleição que se aproxima. Se o governo realmente estivesse preocupado com a fome dos brasileiros, teria agido com essa ênfase antes, até porque o estado de emergência não nasceu agora em julho.
O presidente Jair Bolsonaro, atrás de Luiz Inácio Lula da Silva em todas as pesquisas, age desesperadamente não apenas para saciar a fome de milhões de pobres, mas principalmente para tentar reverter o cenário eleitoral. O governo entrou em uma espécie de vale-tudo para tentar ser reeleito. Não se sabe se a estratégia dará certo, já que especialistas dizem que talvez não haja mais tempo para virar a curva.
Para acenar ao eleitorado mais pobre, vale tudo para o governo, até mesmo mandar para as cucuias o teto de gastos. A equipe econômica, que tomou posse afirmando que cumpriria à risca a regra fiscal, já pediu autorização do Congresso para ignorá-la cinco vezes.
Bolsonaro tentará a todo custo convencer o eleitor que se preocupa com a fome dos brasileiros. Mas não conseguirá apagar da memória que, desde o início, menosprezou a questão social. Durante a atual gestão, vários programas exitosos foram desmantelados ou desfigurados. Ficou patente que o novo Bolsa Família, agora batizado de Auxílio Brasil, foi aprovado nas coxas, sem critérios claros.
O auxílio emergencial da pandemia, vale lembrar, não sairia do papel se não fosse a pressão do Congresso e da opinião pública. Por Bolsonaro, não haveria o repasse ou, se houvesse, seria de apenas R$ 200. Mas, a contragosto, teve de pagar R$ 600 no auge da pandemia. E viu que deu resultado. A despeito de seu negacionismo durante a crise, viu sua popularidade aumentar naquele momento.
O fato é que o presidente tentará melhorar sua performance eleitoral agora. Num cenário – agravado por políticas do governo – de desemprego alto, inflação de dois dígitos e com o País voltando ao mapa da fome, ele vai apostar todas as fichas no pacotão previsto na PEC.
O auxílio é importante, mas Bolsonaro terá dificuldade de vender a imagem de homem preocupado com o social.