O senador e candidato à reeleição Styvenson Valentim (Podemos-RN) criticou publicamente a irmã, Anne Kelly Valentim (Podemos), por ela ter recebido o auxílio emergencial na pandemia de Covid-19. Anne Kelly foi a escolhida por ele para disputar a eleição como primeira suplente, quem assume a cadeira quando o titular se afasta, na chapa ao Senado.
Segundo Styvenson, a irmã talvez cumprisse as exigências da lei, mas não precisava do dinheiro. “Pegou sem precisão e ela sabe. Ela sabe o que eu estou falando. Não precisava pegar um auxílio emergencial na pandemia. O auxílio emergencial era para quem estava precisando”, disse o senador nesta quarta-feira 16.

Ele admitiu que Anne estava sem emprego na época e poderia ter direito ao benefício pelas regras do Governo Federal. Na avaliação do senador, porém, as condições financeiras dela não justificavam o pedido. “Ela tem casa, tinha comida. Ah, mas era desempregada. Ela poderia estar dentro do requisito do direito. Poderia estar cumprindo todos os requisitos. Mas não tinha necessidade”, afirmou.
A briga veio a público em junho de 2020, quando Styvenson soube que a irmã tinha recebido uma parcela de R$ 600 do programa. Na ocasião, ele fez uma transmissão ao vivo em que tornou pública a discussão com a família, disse que receber o dinheiro poderia até ser legal, mas não seria correto do ponto de vista moral, e avisou que tentaria devolver o valor à Caixa Econômica Federal. Anne respondeu que estava desempregada havia meses e acreditava cumprir os critérios do auxílio.
Perguntado agora se ainda confia na irmã depois do episódio, o senador garantiu que a crítica não estremeceu a relação. “Fui lá e expus mesmo. Eu corrigi. Quantas vezes ela me corrigiu a vida toda”, declarou.
Para explicar a escolha de Anne para a primeira suplência, Styvenson citou o laço de família e a confiança que vem desde a infância. Ele contou que a irmã é mais velha, ele tem 49 anos e ela, 57, e que ela ajudou a criá-lo e esteve ao lado dele em parte dos estudos. “Minha irmã que me viu nascer, mais velha do que eu dez anos, cuidou de mim, levou para a escola. Confio”, disse.
A indicação gerou questionamentos porque o senador fez parte de sua carreira política combatendo o nepotismo, a nomeação de parentes, e a presença de familiares em cargos de poder. Em 2019, Styvenson apresentou uma proposta de emenda à Constituição (PEC) para endurecer as restrições à contratação de parentes em cargos comissionados e funções de confiança.
Do ponto de vista jurídico, porém, montar uma chapa eleitoral com parentes não é nepotismo, já que não se trata de nomear alguém para cargo público, e sim de uma candidatura que passa pelo voto dos eleitores.
Styvenson insistiu que a decisão é legal e disse que não quis repetir o que aconteceu em 2018. Naquela eleição, ele deixou que o partido ao qual era filiado, a Rede Sustentabilidade, indicasse o primeiro suplente, o advogado Alisson Taveira, a quem o senador acusa de ter tentado tirar proveito do mandato.
“Eu tive a péssima decepção em 2018 de deixar o partido escolher o suplente. Me extorquiu. Um suplente que queria de todo jeito tirar vantagem a respeito de mim. Eu não ia cometer o mesmo erro, né?”, afirmou.
Se Styvenson for reeleito, Anne poderá ocupar a vaga no Senado sempre que o titular se afastar do mandato. A segunda suplente da chapa é a advogada Milena Galvão (PSDB), vice-prefeita de Currais Novos, no Seridó.