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Eleições 2026

Flávio se diz “presidente eleito” e depois altera para “líder do Brasil”

Derrotado por Lula por 4,4 milhões de votos, senador divulga duas versões de documento em que alega fraude eleitoral sem apresentar provas
Agora RN
29/10/2026 | 00:57

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou nesta quarta-feira 28 duas versões de uma carta em que contesta o resultado da eleição presidencial e afirma, sem apresentar provas, que houve fraude na votação. Na primeira redação, o candidato derrotado se apresentou como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, apesar de ter perdido a disputa para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por aproximadamente 4,4 milhões de votos. Posteriormente, o documento foi modificado, substituindo a expressão por “líder do Brasil”.

Em ambas as versões, Flávio questiona a legitimidade do processo eleitoral e anuncia que pretende comandar a oposição ao governo petista a partir dos Estados Unidos.

Flávio Bolsonaro e familiares desembarcam em Miami
Senador e sua família desembarcando em Miami, após sair do Brasil e fazer paradas na Argentina e no Equador — Foto: Reprodução

A manifestação foi divulgada três dias depois do segundo turno e poucas horas após o senador desembarcar em Miami, na Flórida, acompanhado da mulher e das duas filhas. Flávio deixou Brasília na terça-feira 27, seguiu até a fronteira com a Argentina e embarcou em uma aeronave particular que passou pelo Equador antes de chegar ao território americano. A viagem ocorreu após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar o recolhimento de seu passaporte.

Na abertura da primeira versão da carta, Flávio escreveu: “Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Na segunda publicação, o trecho passou a ser: “Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o líder do Brasil”. O senador não apresentou elementos que sustentassem a alegação de que teria vencido a eleição.

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Outra passagem também foi modificada. Na redação original, o parlamentar declarou: “Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Quero dizer, não só para os meus 60 milhões de eleitores, mas para o povo brasileiro, que eu sou o presidente eleito e os criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania. Vocês que almejavam a mudança, e eu não vou abandoná-los, eu serei a voz e a liderança livre da nossa nação”. Posteriormente, retirou a referência a si próprio como presidente eleito.

Acusações contra o processo eleitoral

A carta retoma os argumentos apresentados por Flávio logo após a confirmação da vitória de Lula, no domingo 25. Na ocasião, o senador declarou que não reconheceria o resultado e anunciou a intenção de solicitar a anulação da votação. A principal contestação envolve a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que autorizou a extensão do horário de votação até as 19h em seções eleitorais que permaneciam abertas.

Flávio voltou a atribuir o resultado a supostas irregularidades. “Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos”, afirmou na carta. O senador também acusou o governo petista de abuso de poder político e econômico e defendeu a cassação da chapa adversária.

No domingo, Flávio havia alegado ainda que fiscais de seu partido foram expulsos do TSE durante a votação. A afirmação foi desmentida pela Justiça Eleitoral. A vitória de Lula foi reconhecida pelo Congresso Nacional, pelo TSE e por representantes da comunidade internacional. O próprio PL reconheceu oficialmente o resultado, em nota assinada por seu presidente, Valdemar Costa Neto.

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Saída do Brasil e apoio internacional

Ao justificar a viagem, Flávio mencionou a possibilidade de sofrer novas medidas judiciais, incluindo uso de tornozeleira eletrônica, prisão domiciliar e eventual condenação. O parlamentar reconheceu, entretanto, que não havia mandado de prisão expedido contra ele quando deixou o país.

“Não era minha intenção deixar minha pátria, mas eu sei exatamente onde isso vai dar. Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado”, declarou.

O senador rejeitou a caracterização de sua saída como fuga e afirmou que sua permanência nos Estados Unidos permitirá maior liberdade de atuação política. “Não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece, pois calado, preso e censurado, como meu pai está, eu não poderia ser essa liderança”, escreveu.

Flávio também agradeceu aos presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Argentina, Javier Milei, pelo apoio recebido durante sua saída do Brasil. “Antes de mais nada, queria agradecer ao presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher”, afirmou.

Rogério Marinho e articulação da oposição

A carta também estabelece o papel político que Flávio pretende exercer no exterior. O senador afirmou que continuará articulando parlamentares, governadores e demais aliados, com atenção especial à reorganização da oposição após a derrota presidencial.

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Entre os destinatários da mensagem está o senador Rogério Marinho (PL-RN), apontado por Flávio como seu candidato à Presidência do Senado. A declaração ocorre durante as movimentações para a escolha do próximo comando da Casa, prevista para fevereiro de 2027.

“Aos senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger, e em especial ao meu candidato à presidência do Senado, Rogério Marinho: sei que hoje vocês não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política. Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr”, declarou.

Ao encerrar o documento, o senador prometeu manter contato frequente com seus apoiadores e apresentar um plano de mobilização política. “Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos”, afirmou.

Senador fugiu em jato de empresa investigada por lavagem de dinheiro

Flávio Bolsonaro deixou o Brasil utilizando um jato particular operado pela Baires Fly S.A., empresa mencionada em uma investigação sobre suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro na Argentina. A aeronave transportou o parlamentar, sua mulher e suas duas filhas até Miami, nos Estados Unidos, após uma escala no Equador.

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A Direção Nacional de Migrações da Argentina confirmou nesta quarta-feira 28 que Flávio e seus familiares entraram no país por via terrestre, atravessando a Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu, no Paraná, a Puerto Iguazú. A passagem pela fronteira foi registrada às 22h50 de terça-feira.

Apenas 40 minutos depois, às 23h30, o grupo embarcou em um voo privado operado pela Baires Fly, com destino a Guayaquil, no Equador. O avião utilizado foi um Gulfstream G400, de matrícula LV-JQW. Após a parada em território equatoriano, a viagem prosseguiu até Miami, onde Flávio desembarcou na manhã desta quarta-feira.

A Baires Fly aparece em uma investigação judicial argentina sobre possíveis desvios de recursos da Agência Nacional de Deficiência (Andis), responsável por políticas públicas destinadas a pessoas com deficiência. A suspeita é de que pagamentos de fornecedores de medicamentos e insumos médicos tenham sido direcionados à companhia aérea e posteriormente justificados por faturas de serviços aeronáuticos.

O empresário Sergio Mastropietro, ligado à Baires Fly, é citado entre os investigados. O escândalo veio à tona em 2025, após a divulgação de gravações sobre supostas cobranças de propina, e provocou a demissão de Diego Spagnuolo, então diretor da Andis e ex-advogado do presidente Javier Milei.

O jatinho utilizado pelo senador foi fabricado em 2004. Aeronaves usadas desse modelo são avaliadas entre US$ 7 milhões e US$ 9 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 37,3 milhões e R$ 48,1 milhões.