Enquanto o k-pop consolidou a Coreia do Sul como uma potência global da cultura pop, outro fenômeno asiático vem ampliando sua presença internacional de forma mais gradual e menos planejada. O j-pop, gênero que reúne diferentes vertentes da música popular japonesa, tem conquistado novos públicos ao redor do mundo impulsionado principalmente pelo sucesso dos animes, uma das maiores exportações culturais do Japão.
Embora o termo j-pop exista desde o fim dos anos 1980, o gênero ganhou projeção internacional mais significativa nos últimos anos graças à expansão das plataformas de streaming e à crescente popularidade das animações japonesas. Músicas utilizadas em aberturas e trilhas sonoras de séries e filmes se transformaram em porta de entrada para artistas japoneses em mercados que antes tinham pouco contato com a produção musical do país.

Dados da Luminate, uma das principais empresas de monitoramento do mercado fonográfico mundial, indicam que os animes têm desempenhado papel decisivo nesse processo. As trilhas sonoras das produções não apenas aumentam significativamente o número de reproduções dos artistas envolvidos, como também ajudam a levar músicas japonesas para audiências internacionais pela primeira vez.
Um dos casos mais emblemáticos é o da cantora Ado. Antes do lançamento da trilha sonora de One Piece Film: Red, em agosto de 2022, suas músicas registravam números praticamente insignificantes fora do Japão. Após a estreia do longa, a artista alcançou cerca de 16 milhões de reproduções em seu país de origem e quase quatro milhões em outros mercados. Desde então, seus números internacionais deixaram de retornar aos níveis anteriores e, em determinados períodos, chegaram até mesmo a superar o volume de execuções registrado no Japão.
O movimento também pode ser observado na trajetória da dupla Yoasobi. A canção Idol, tema de abertura do anime Oshi no Ko, transformou-se em um dos maiores sucessos internacionais da música japonesa recente. Desde seu lançamento, em 2023, a faixa acumulou cerca de 3,9 bilhões de reproduções e alcançou a sétima posição da Billboard Global 200, tornando-se, à época, a música japonesa mais bem colocada da história do ranking.
O recorde acabou sendo superado posteriormente por Iris Out, do cantor Kenshi Yonezu, utilizada como abertura de Chainsaw Man – O Filme. O desempenho reforça a crescente capacidade dos animes de transformar músicas em fenômenos globais e ampliar a visibilidade de artistas japoneses em plataformas digitais.
Apesar das comparações frequentes, especialistas destacam que j-pop e k-pop seguiram trajetórias bastante distintas. Diferentemente do modelo sul-coreano, baseado em grandes empresas de entretenimento, treinamento intensivo de artistas e forte orientação para o mercado internacional, a música pop japonesa se desenvolveu de maneira mais espontânea e voltada principalmente ao público doméstico.
Segundo Lica Hashimoto, professora de Literatura Japonesa do Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), o próprio termo j-pop surgiu para diferenciar a produção musical japonesa do pop estrangeiro. De acordo com a pesquisadora, a expressão foi criada por Hideo Saito, então diretor executivo da rádio J-Wave, durante o final da década de 1980.
O gênero reúne influências variadas, incluindo rock, hip-hop, R&B e música eletrônica, sem seguir necessariamente o formato dos grupos altamente coreografados que se tornaram marca registrada do k-pop. Essa diversidade ajudou a construir uma identidade própria para a música japonesa, ainda que sua expansão internacional tenha ocorrido de forma mais lenta.
Dados da Deezer apontam diferenças também no perfil dos ouvintes. Enquanto o k-pop costuma reunir uma base majoritariamente feminina, o j-pop apresenta forte adesão do público masculino. Artistas como AKB48, Yoasobi, Kenshi Yonezu, LiSA e Creepy Nuts registram percentuais elevados de ouvintes homens, que em alguns casos representam mais de 80% das reproduções na plataforma.
No Brasil, a popularidade crescente dos animes também vem contribuindo para ampliar o interesse pelo gênero. O país abriga a maior comunidade de descendentes japoneses fora do Japão, fator que favorece a circulação da cultura nipônica. Para Eduardo Ribas, editor sênior da Deezer, a entrada da Netflix na produção e distribuição de animes acelerou ainda mais esse processo, levando a música japonesa a públicos que antes não consumiam esse conteúdo.
O alcance das animações japonesas já influencia inclusive artistas brasileiros. Um dos exemplos frequentemente citados é Emicida, admirador declarado de animes e que chegou a viajar ao Japão motivado pelo interesse nas produções do país.
Ao contrário do que ocorreu na Coreia do Sul, o avanço internacional do j-pop não foi resultado de uma política estruturada de promoção cultural. O governo sul-coreano investiu pesadamente no k-pop como ferramenta de soft power, estratégia que ajudou a transformar o gênero em um dos principais produtos culturais do país. No caso japonês, o processo ocorreu de maneira muito mais orgânica.
Lica Hashimoto e Lilian Mitsuko Yamamoto, professora-doutora de Cultura e Literatura Japonesa da FFLCH-USP, observam que o Japão nunca enfrentou uma necessidade urgente de exportar sua música popular. O país possui o segundo maior mercado musical do mundo, avaliado em cerca de US$ 2,9 bilhões, sustentado por uma população de aproximadamente 123 milhões de habitantes. A Coreia do Sul ocupa a sexta posição global, com mercado estimado em US$ 1,1 bilhão.
Segundo Lica, a internacionalização da música japonesa ocorreu por caminhos diferentes dos adotados pela indústria sul-coreana.
“Mais do que a ausência de circulação internacional, houve um modelo diferente de internacionalização, mais orgânico e muito sustentado pelo fandom (comunidades de fãs que ajudam a divulgar artistas, músicas e conteúdos nas redes)”, afirma.
Outro fator que historicamente limitou a expansão internacional do j-pop foi a postura conservadora da indústria japonesa em relação aos direitos autorais. Lilian explica que gravadoras e agências demonstraram durante muitos anos forte resistência à circulação de conteúdos na internet, restringindo a divulgação de imagens, vídeos e músicas em plataformas digitais.
“Durante anos, as grandes gravadoras (como a Johnny & Associates) agiram de forma analógica e restritiva, bloqueando e removendo fotos, vídeos e clipes de seus artistas da internet por medo de prejudicar as marcas. Por exemplo, 65% das vendas ainda são físicas, mas o streaming cresce 15% ao ano”, diz a professora.
Essa característica ajuda a explicar por que o mercado de CDs permanece relevante no Japão, mesmo em um cenário global amplamente dominado pelo consumo digital. Ao mesmo tempo, o crescimento acelerado do streaming tem pressionado a indústria a adotar estratégias mais abertas para alcançar novos públicos.
Nos últimos anos, sinais de mudança começaram a surgir. Agências japonesas passaram a incorporar elementos inspirados no modelo coreano, especialmente na área de performances e divulgação internacional. Segundo Lilian, algumas empresas responsáveis por grupos como o AKB48 já contratam coreógrafos sul-coreanos para desenvolver as chamadas point dances, coreografias simples e marcantes que costumam viralizar nas redes sociais.
Apesar dessas adaptações, especialistas avaliam que o j-pop continuará preservando características próprias.
“O k-pop costuma enfatizar temas universais, performances visuais e fórmulas de composição inspiradas no Ocidente, enquanto o j-pop valoriza mais a tradição do cantor-compositor e letras com histórias pessoais e reflexões sobre a vida”, explica ainda Lilian.
Para ela, o futuro do gênero passa necessariamente pela ampliação da presença digital.
“Mas a tendência é que o j-pop se torne cada vez mais acessível, utilizando as plataformas de streaming e redes sociais como ferramentas essenciais de sobrevivência e expansão de fãs-clubes internacionais.”
Lica também vê perspectivas positivas para os próximos anos, embora em um ritmo diferente daquele observado no fenômeno sul-coreano.
“Talvez o j-pop não ocupe o mesmo espaço global do k-pop, porque são modelos culturais e industriais diferentes, mas ele tende a se consolidar cada vez mais fora do Japão, em especial por intermédio da sua conexão com animes, games e plataformas digitais.”
A avaliação das especialistas indica que a expansão internacional da música japonesa deve continuar sendo impulsionada principalmente pela força de outras expressões culturais do país. Em vez de reproduzir a fórmula do k-pop, o j-pop parece seguir um caminho próprio, apoiado na popularidade global dos animes, no engajamento de comunidades de fãs e na crescente abertura da indústria japonesa ao ambiente digital.