O Rio Grande do Norte precisa parar de admirar os feitos dos outros e começar a enxergar o valor do que produz. A afirmação é do superintendente do Sebrae-RN, Zeca Melo, ao explicar a origem do movimento Feito Potiguar, iniciativa que já reconheceu 101 produtos fabricados no Estado e que pretende transformar a identidade produtiva local em ativo de consumo e orgulho coletivo.
“É hora de parar de elogiar o vizinho e olhar para o que é nosso. A gente precisa resgatar autoestima e valorizar nossa história”, afirmou Zeca, em entrevista à 96 FM.

O Feito Potiguar é resultado de uma aliança entre o Sebrae e as federações do Comércio (Fecomércio), da Indústria (Fiern) e da Agricultura (Faern). A ideia, segundo ele, surgiu da recorrente comparação desfavorável entre o RN e estados vizinhos. “A gente ouve que o vizinho do lado tem o melhor turismo, a melhor educação, o melhor tudo. E ficamos aqui na Praça das Flores, tomando uísque e reclamando”, provocou.
O movimento busca reconhecer produtos que tenham origem no Rio Grande do Norte, tanto na matéria-prima quanto na fabricação, promovendo visibilidade e inclusão no mercado formal. “É feito porque é produzido aqui, mas também é feito como uma proeza, uma façanha. Por isso Ítalo Ferreira é o embaixador, ele representa isso.”
Para ser reconhecido, o produto precisa cumprir critérios objetivos como registro sanitário e viabilidade de comercialização em supermercados. “Não é certificação. É reconhecimento, com protocolo. Não podemos vulgarizar”, explicou. Entre os reconhecidos estão desde grandes empresas, como a Simas Industrial e a Ster Bom, até pequenos produtores como queijeiras que até pouco tempo atrás operavam na informalidade. “Tem queijeira que há cinco anos corria da vigilância. Hoje está nas gôndolas dos supermercados com orgulho.”
O movimento já gerou resultados visíveis. Em Mossoró, a rede Queiroz criou uma gôndola exclusiva para produtos potiguares. O Nordestão adotou bandeirinhas de identificação nas prateleiras de lojas como a de Tirol e Petrópolis. O Sebrae também organizou, com a Abrasel, um jantar com 40 donos de restaurantes potiguares. A proposta é que cada estabelecimento crie um prato com ingredientes locais e receba o selo Feito Potiguar. “Desde o camarões até a galinha da Totoia, todos vão poder mostrar o que a gente tem de melhor.”
A iniciativa avança por etapas e regiões. Já foi lançada em Natal, Mossoró, Assú, Pau dos Ferros e Caicó. Estão programados eventos em Currais Novos no dia 31 de julho, e em Santa Cruz e Nova Cruz no dia 13 de agosto. Cada local tem um foco específico. Em Santa Cruz, por exemplo, o movimento reconhecerá casas de farinha que se formalizaram para vender seus produtos.
A conexão entre produtores já vem gerando novos negócios. Zeca citou como exemplo a união entre o Cordeiro Patriota, a padaria Elas e a marca Dona Gertrudes, de queijo artesanal, para criar um cheeseburger potiguar. Também mencionou a entrada de chefs como Rodrigo Levino, do restaurante Jesuíno Brilhante, e Irina, conhecida nacionalmente pelos seus cuscuz, no circuito de valorização da gastronomia local.
O Sebrae prepara ainda ações com pousadas e hotéis, além de presença reforçada na Festa do Boi, na Expofruit, na Meia Maratona do Sol e no festival Cave, voltada a alimentos e bebidas. Em uma das ativações, está prevista uma estação de degustação com vinho produzido ao vivo pelo enólogo Galego. “Vamos fazer isso com leveza, mas com força. Isso tudo resgata autoestima e reforça o sentimento de pertencimento.”
Outro evento previsto é o Conexão ODS, que será realizado de 7 a 9 de agosto no Barreira Roxa, em Natal. A iniciativa, segundo Zeca, é uma parceria do Sebrae com as Nações Unidas, o governo e a ONG Somos Um, devendo reunir 800 empresas para discutir práticas sustentáveis e temas ligados à agenda ESG. “É o maior evento sobre sustentabilidade do país, e será aqui. Isso tem que virar diferencial competitivo para o RN.”
Para ele, o valor da produção potiguar vai além do mercado. Envolve cultura, história e identidade. “A maior referência sobre alimentação no Brasil, Heloísa Câmara Castro, é do nosso estado. Isso tem que contar. Isso tem que virar diferencial.” Ao final da entrevista, resumiu a proposta do movimento em uma frase: “Feito Potiguar é sobre consumir o que é nosso, reconhecer o que é nosso, e parar de achar que só o que vem de fora é bom.”