A retomada das atividades da Avibras Aeroco, principal fabricante brasileira de sistemas de artilharia e mísseis, ocorre em meio ao aumento da demanda global por equipamentos militares e ao debate sobre a capacidade de defesa do Brasil. Após quatro anos de paralisação da antiga Avibras em razão da recuperação judicial, a nova empresa voltou a produzir e prepara a entrega de munições ao Exército, ao mesmo tempo em que avança na certificação do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC). Para o presidente da companhia, Sami Youssef Hassuani, o país precisa reorganizar sua base industrial de defesa para garantir capacidade de produção em larga escala diante do novo cenário geopolítico.
Em entrevista ao Estadão, Hassuani afirmou que a soberania nacional passou a depender não apenas de Forças Armadas equipadas e da capacidade diplomática, mas também de uma indústria capaz de repor estoques rapidamente durante conflitos prolongados. A avaliação reforça declarações recentes do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, que alertou para a necessidade de fortalecer a estrutura de defesa brasileira. Segundo o executivo, guerras recentes demonstraram que países sem capacidade industrial escalável tendem a perder competitividade militar mesmo dispondo de equipamentos modernos.

A Avibras recebeu aporte de R$ 300 milhões de investidores, entre eles os empresários Joesley e Wesley Batista, controladores da JBS, e afirma ter restabelecido cerca de 90% de sua cadeia de fornecedores. O complexo industrial localizado no interior paulista reúne 18 unidades fabris distribuídas por uma área de 2,7 milhões de metros quadrados. A empresa já retomou a fabricação dos foguetes SS-40 e SS-80, além da produção de munições do sistema Astros destinadas ao Exército Brasileiro e de componentes para o programa espacial da Força Aérea Brasileira.
Entre os principais projetos está o MTC, míssil de cruzeiro desenvolvido para ser lançado pelo sistema Astros. O armamento possui alcance inicial de 300 quilômetros, podendo atingir até 450 quilômetros, com precisão estimada em nove metros e capacidade para transportar carga explosiva de até 200 quilos. Segundo Hassuani, restam apenas três voos de certificação antes da conclusão do programa, com novo teste previsto para novembro. A empresa projeta capacidade de produzir até 200 unidades por ano e pretende exportar o equipamento para países do Golfo Pérsico e do Sudeste Asiático.
Além do MTC, a companhia desenvolve, em parceria com o Exército, um novo míssil balístico guiado de 120 quilômetros de alcance, além de ampliar seu portfólio para incluir drones de vigilância e ataque e sistemas antidrone. Segundo o executivo, a demanda internacional por veículos aéreos não tripulados cresceu significativamente após os conflitos recentes, tornando esse segmento estratégico para a expansão da empresa. A expectativa é iniciar exportações de produtos completos já em 2027, um ano antes do cronograma inicialmente previsto.
Para sustentar esse crescimento, Hassuani defende maior coordenação entre políticas públicas de inovação, financiamento e aquisição de equipamentos militares. A proposta prevê integrar recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), das linhas de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e do orçamento do Ministério da Defesa. Na avaliação do executivo, esse modelo permitiria organizar programas de longo prazo e ampliar a capacidade produtiva da indústria nacional de defesa.
O presidente da Avibras também defende maior cooperação entre empresas brasileiras do setor, como SIATT e Mac Jee, por meio de consórcios ou parcerias semelhantes aos adotados pela indústria europeia. Segundo ele, a integração da base industrial permitirá atender simultaneamente às necessidades das Forças Armadas e à crescente demanda internacional por sistemas de defesa, em um mercado aquecido pelo aumento dos investimentos militares em diversas regiões do mundo.