BUSCAR
BUSCAR
EDITORIAL

Segurança também sustenta o turismo

Pipa sustenta uma cadeia econômica que reúne hotéis, pousadas, bares, restaurantes, comércio, transportes, passeios e serviços
Agora RN
11/09/2026 | 00:39

Representantes da hotelaria de Pipa procuraram o Governo do Rio Grande do Norte nesta semana para cobrar o reforço da segurança em um dos principais destinos turísticos do Estado. A preocupação é legítima. A criminalidade não ameaça apenas a integridade de moradores, trabalhadores e visitantes. Ela pode comprometer a imagem de um destino construído ao longo de décadas e atingir uma atividade econômica da qual dependem milhares de famílias.

A reunião ocorreu depois de cinco turistas serem assaltados à mão armada na madrugada do último sábado 5. O grupo retornava de uma festa em um veículo de transporte por aplicativo quando foi interceptado por criminosos distribuídos entre duas motocicletas e um automóvel. Segundo uma das vítimas, pelo menos três assaltantes estavam armados e bateram nos vidros para obrigar os ocupantes a abrir as portas. Três pessoas registraram boletim de ocorrência.

Autoridades de segurança e representantes do setor hoteleiro reunidos em torno de uma mesa
Autoridades da Segurança Pública do RN reunidas com o setor hoteleiro de Pipa — ABIH-RN/Assessoria

Não se trata do primeiro alerta recente. Em junho, um turista de Santa Catarina relatou ter sido assaltado por dois homens armados. Foram levados um cordão de ouro, dois anéis e duas pulseiras. Um vendedor que estava no local também perdeu o celular. Dias depois, outro visitante afirmou ter encontrado fechada a delegacia de Tibau do Sul quando tentou registrar uma ocorrência.

É correto reconhecer que as polícias Civil e Militar vêm realizando operações contra o tráfico e grupos criminosos na região. A Polícia Civil também desenvolve a Operação Liberdade, destinada a enfrentar organizações criminosas, tráfico de drogas e homicídios em Tibau do Sul. Esse trabalho, contudo, precisa ser acompanhado de uma estratégia específica para um destino que recebe grande fluxo de pessoas durante fins de semana, feriados e temporadas.

Na reunião com o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio Grande do Norte, Edmar Gadelha, empresários e outras autoridades, o secretário estadual da Segurança Pública, coronel Araújo, comprometeu-se a ampliar as ações de inteligência e a atuação das forças policiais. Não foram apresentados, porém, números sobre reforço do efetivo nem um cronograma para a adoção das medidas. O diálogo é importante, mas precisa resultar em providências efetivas.

A preocupação do setor hoteleiro não pode ser reduzida a uma tentativa de proteger interesses particulares. Pipa sustenta uma cadeia econômica que reúne hotéis, pousadas, bares, restaurantes, comércio, transportes, passeios e serviços. Quando o destino cresce, o benefício se distribui entre empresas, trabalhadores, fornecedores e o próprio poder público, por meio da arrecadação. Quando sua reputação é abalada, as perdas também se espalham.

O turismo potiguar atravessa um período de expansão que precisa ser preservado. O Aeroporto Internacional de Natal movimentou aproximadamente 1,38 milhão de passageiros apenas no primeiro semestre de 2026. Levantamento do setor de viagens apontou crescimento de 55% na procura ou comercialização do destino em 2025 e uma expectativa de avanço de 73% neste ano. Antes disso, nos quatro primeiros meses de 2025, a chegada de visitantes estrangeiros ao Estado cresceu 54,4%. São números positivos, que demonstram o potencial do Rio Grande do Norte para ampliar sua participação no mercado nacional e internacional.

Resultados dessa dimensão, entretanto, não se sustentam apenas pela beleza das praias. O turismo depende de um conjunto articulado de estratégias. É necessário manter uma divulgação constante, permanente e direcionada aos mercados capazes de enviar visitantes ao Estado. Também são indispensáveis conectividade aérea, estradas em boas condições, saneamento, limpeza urbana, sinalização, mobilidade, preservação ambiental, qualificação dos serviços e infraestrutura compatível com o volume de pessoas recebido pelos destinos.

A segurança integra essa estrutura básica. Um turista que sofre um assalto, uma agressão ou qualquer outro episódio de violência dificilmente considerará positiva sua experiência no lugar. Além de reconsiderar uma futura viagem ao Rio Grande do Norte, poderá relatar o ocorrido a familiares, amigos e seguidores nas redes sociais. Em poucos minutos, um caso individual ultrapassa as fronteiras do município e pode alcançar milhares de potenciais visitantes. A imagem negativa circula com velocidade muito maior do que qualquer campanha promocional.

Isso não significa transformar ocorrências específicas em retrato definitivo de Pipa. A própria hotelaria tem adotado uma posição responsável ao reconhecer o trabalho das forças policiais e evitar generalizações. O que não se pode fazer é usar o receio de prejudicar a imagem do destino como justificativa para minimizar os problemas. A melhor proteção para a reputação de Pipa não é o silêncio, mas uma resposta pública capaz de prevenir crimes, esclarecer ocorrências e responsabilizar os envolvidos.

O Estado precisa desenvolver um modelo contínuo de segurança turística, com inteligência, policiamento ostensivo, investigação, funcionamento adequado das delegacias e reforço proporcional ao aumento sazonal da população. Também é necessário integrar Governo, Prefeitura de Tibau do Sul, empresários e comunidades locais. Pipa já demonstrou sua força como destino nacional e internacional. Preservar essa conquista exige compreender que segurança não é um elemento acessório: é parte essencial da qualidade oferecida ao visitante e da sustentabilidade econômica do turismo potiguar.