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Editorial

O diálogo volta à educação de Natal

Retomada da negociação entre Prefeitura e professores precisa produzir respostas, prazos e encaminhamentos concretos
Agora RN
02/09/2026 | 23:38

A decisão do prefeito Paulinho Freire de receber pessoalmente os representantes dos professores da rede municipal merece reconhecimento. Depois de uma greve que se estendeu de 6 a 25 de agosto, a Prefeitura do Natal e o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Rio Grande do Norte (Sinte) finalmente sentaram à mesa para discutir salários, carreira e condições de trabalho. O encontro não resolveu as principais divergências, mas restabeleceu um canal institucional que não funcionava de maneira contínua nas gestões anteriores e cuja ausência contribuiu para o prolongamento dos conflitos.

A audiência realizada nesta terça-feira 1º teve importância pelo próprio gesto político. Ouvir diretamente a categoria é atribuição do chefe do Executivo, sobretudo quando a paralisação já foi encerrada e existe a possibilidade de substituir o confronto por negociação. Durante a gestão de Álvaro Dias, o relacionamento com os professores foi marcado por longos períodos sem diálogo efetivo e dificuldades para aplicação integral do piso nacional. Em junho de 2023, por exemplo, o então prefeito recebeu o Sinte-RN depois de meses de reivindicações por uma audiência, sem apresentar naquele primeiro encontro uma proposta de recomposição.

Prefeito Paulinho Freire reunido com representantes do Sinte-RN
Diálogo entre Prefeitura do Natal e professores foi retomado após a greve — Lenilton Lima/Sinte-RN

O histórico salarial explica parte da insatisfação acumulada. Em 2020, quando o reajuste nacional foi de 12,84%, a Prefeitura concedeu apenas 6,42%. Em 2022, não implantou o aumento de 33,24% definido para o piso. No ano seguinte, aplicou 7%, menos da metade do índice nacional de 14,95%. Somente em 2024 a correção de 3,62% foi concedida integralmente. Foram anos de congelamento ou recomposições parciais que abriram uma defasagem difícil de eliminar de uma só vez.

A gestão de Paulinho Freire começou a alterar esse padrão. Em 2025, concedeu integralmente o reajuste nacional de 6,27%, alcançando professores da ativa, aposentados e pensionistas. Em 2026, a Prefeitura voltou a acompanhar a atualização nacional e incorporou mais 5,4%.

Esses números não significam que todos os problemas tenham sido resolvidos. A categoria reivindica agora uma recomposição adicional de 4,6%, para alcançar aumento total de 10% em 2026. Trata-se de uma pretensão que supera o reajuste nacional e, portanto, exige avaliação das contas municipais, da receita do Fundeb e dos efeitos sobre a Previdência. O prefeito acertou ao determinar a realização dos cálculos, mas também assumiu o compromisso de apresentar respostas na nova audiência, marcada para terça-feira 8. O diálogo será mais produtivo se vier acompanhado de dados objetivos e alternativas concretas.

A pauta também vai muito além dos vencimentos. Os professores cobram isonomia entre três carreiras, unificação das leis que regulam os profissionais, convocação de aprovados em concurso e melhorias em escolas e Centros Municipais de Educação Infantil. O próprio prefeito reconheceu a importância de avançar na construção de uma carreira única. A participação do NatalPrev na próxima reunião será necessária para dimensionar os efeitos das mudanças e evitar que uma solução administrativa crie novas desigualdades entre servidores ativos e aposentados.

Há ainda pendências básicas que não podem ser tratadas como secundárias. A Prefeitura está concluindo em 2026 os repasses do Recurso do Orçamento Municipal referentes a 2025. Das cinco parcelas, três foram pagas, enquanto as duas restantes estão previstas para outubro e dezembro. Somente depois deverá começar a quitação dos valores relativos ao próprio exercício de 2026. Atrasos dessa dimensão comprometem limpeza, pequenos reparos, compra de materiais e o funcionamento cotidiano das unidades.

Outro ponto que exige transparência é o reconhecimento facial adotado nas escolas. O Sinte-RN questiona o sistema e admite pedir sua retirada. A presença do Banco do Brasil na próxima audiência poderá esclarecer a finalidade da ferramenta, a forma de armazenamento das informações e as garantias oferecidas para proteger os dados dos estudantes. Quando crianças e adolescentes estão envolvidos, nenhuma inovação tecnológica pode dispensar explicações claras às famílias e à comunidade escolar.

A retomada da negociação é, portanto, um avanço que deve ser valorizado, mas não pode funcionar apenas como gesto simbólico. Ao receber os professores, Paulinho Freire rompeu com uma prática de distanciamento que desgastou a relação entre o poder público e uma categoria essencial. Os reajustes integrais de 2025 e 2026 também sinalizam uma mudança importante em relação às perdas acumuladas no período anterior.

O próximo passo será transformar abertura política em decisões. Nem todas as reivindicações poderão ser atendidas imediatamente, mas todas precisam receber respostas fundamentadas, prazos e encaminhamentos. A educação de Natal ganha quando Prefeitura e professores negociam de forma permanente, sem que seja necessário chegar a uma nova greve para que o diálogo aconteça. Manter essa mesa aberta será tão importante quanto qualquer acordo que dela venha a resultar.