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Opinião

Venezuela afunda em tragédia sem voz popular

Desastre humanitário amplia dificuldades de um país marcado por décadas de instabilidade, pobreza e infraestrutura comprometida
Por O Correio de Hoje
29/06/2026 | 15:07

Dois terremotos de forte magnitude atingiram a Venezuela simultaneamente na noite de quarta-feira 24 e empurraram o país para uma calamidade humana ainda sem dimensão final. A sequência de abalos menores ampliou a destruição em uma nação já castigada por quase 30 anos de bolivarianismo, por uma economia em ruínas e por um governo tutelado pelos Estados Unidos, cuja legitimidade segue sob contestação.

A tragédia natural encontrou terreno social devastado. A corrupção sistêmica do chavismo, a precariedade dos serviços públicos e a pobreza que atinge 68% da população tornam ainda mais dramático o impacto dos sismos no país vizinho.

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O Palácio de Miraflores informou na sexta-feira 26 que os terremotos haviam deixado 920 mortos, 4.300 feridos e ao menos 50 mil desaparecidos no norte venezuelano, com maior concentração de danos no estado de La Guaira. A expectativa é que a contagem avance para dezenas de milhares de vítimas até a conclusão das buscas nos escombros.

A presidente interina, Delcy Rodríguez, declarou a Venezuela como “zona de desastre” e restringiu o acesso a La Guaira. Um dia antes, na quinta-feira 25, anunciou a criação de um fundo de US$ 200 milhões para a futura reconstrução física, abastecido por repasses do Fundo Monetário Internacional. A destruição material e a crise humanitária, porém, continuam longe de uma avaliação completa.

Os abalos chegaram quando a Venezuela ainda dá os primeiros passos no desmonte da economia bolivariana, processo determinado por Washington após o alívio de sanções e entregue à execução de chavistas históricos.

As medidas divulgadas nos últimos meses apontam para a abertura da mineração e do setor petrolífero ao capital estrangeiro, a renegociação de uma dívida pública estimada em US$ 240 bilhões, equivalentes a 200% do Produto Interno Bruto, e a futura privatização ou liquidação de empresas estatais.

Cinco meses depois do início da intervenção dos EUA, a Venezuela permanece distante da democracia. O regime reduziu o ímpeto repressivo, mas a opção de Washington por concluir a reestruturação econômica antes de abrir a transição política tende a empurrar a possibilidade de eleições para depois de 2028.

A emergência humanitária consumirá recursos que o Estado venezuelano já não tem. A maior parte da população depende de subsídios e cestas básicas do governo, sobrevive em ocupações precárias e enfrenta falta de atendimento médico. É desse segmento que deverá sair a maioria dos mortos, feridos e desaparecidos.

A reação internacional foi rápida, inclusive com o anúncio de US$ 150 milhões em ajuda dos Estados Unidos. A pergunta essencial, agora ainda mais adiada pela calamidade, é por quanto tempo os venezuelanos continuarão afastados das decisões sobre o próprio destino.